“Vamos gastar R$ 100 bilhões e não vamos ajudar muitos que precisam”, diz Romário sobre a Copa no Brasil

Deputado lamenta falta de acessibilidade para deficientes que não são cadeirantes em obras realizadas no país para o Mundial.

Da Redação redacao@novohamburgo.org (Siga no Twitter)

Cem bilhões de reais. É com esse custo, no mínimo, com o qual o Brasil terá que arcar para receber a Copa do Mundo de 2014, conforme o deputado federal Romário (PSB-RJ), eleito no ano passado.

O valor é cerca de dez vezes o previsto inicialmente pelo presidente da CBF, Ricardo Teixeira, em 2007, quando o país ganhou o direito de sediar o Mundial. O ex-atacante da seleção brasileira, agora político, fez críticas à organização da Copa do Mundo e a Ricardo Teixeira em entrevista ao portal R7.

Vice-presidente da Comissão de Turismo e Desporto da Câmara, Romário não nega o rótulo de fiscalizador da Copa no Brasil. Promete expor cada vez mais o que vê nas viagens que faz com a Comissão pelas cidades-sede. Desde fevereiro, já esteve em Manaus, Recife, Curitiba, Belo Horizonte e Fortaleza.

Confira abaixo trechos da entrevista.

Você já visitou cinco das 12 cidades-sede da Copa. Pelo que você tem observado, como está o Brasil na preparação para a Copa do Mundo?

Muito atrasado. Se coisas diferentes não acontecerem, a gente vai fazer a Copa, é claro, mas vai ser apenas mais uma Copa. Não vai passar disso.

Então não vai ser uma “grande Copa”, como chegaram a falar?

Eu também falei, porque o Brasil tinha mesmo condições de fazer a maior Copa de todos os tempos.

Das cidades que você visitou até agora, qual é a que mais te impressionou?

Cara, todas as cidades têm problemas. Mas pegue Curitiba, por exemplo. A Arena da Baixada é um estádio que falta pouco para finalizar, com certeza não vai ter problema. O Castelão, em Fortaleza, a princípio, também não. Pelo que me disseram em Manaus, o aeroporto deles já comportaria o movimento de uma Copa do Mundo, segundo o que foi colocado para a gente pelo superintendente da Infraero. Mas em mobilidade urbana as cinco cidades estão muito atrasadas.

Muito se fala do atraso nos estádios, mas, pelo que você viu, poucas obras foram feitas também nas cidades?

Não tem nada feito. A gente espera que, com essa flexibilização das licitações que foi aprovada agora, as coisas aconteçam. Mas as pessoas não podem interpretar flexibilização como facilitação. Senão vai virar, desculpe a expressão, uma zona completa. O TCU [Tribunal de Contas da União] tem que acompanhar, assim como o TCE [Tribunal de Contas do Estado]. Esses órgãos são importantíssimos nessas flexibilizações para que não haja nenhum tipo de falcatrua, de roubo, de mutreta, essas coisas que a gente conhece e que podem acontecer. O objetivo com as flexibilizações, principalmente por parte dos deputados, é que, daqui a dois anos, os Estados, com seus governos, não venham com esse papo de “agora, como está próximo da Copa, virou obra emergencial”. Aí você imagina como vai ser o gasto com o dinheiro público.

Como você explica para o povo, depois de quatro anos desde que o Brasil foi escolhido sede da Copa, que quase nada foi feito?

É bem simples. Falta de capacidade, de organização, de seriedade e de profissionais que realmente se comprometam a cumprir aquilo que dizem. E não é só no governo. São os profissionais mesmo. Vou te dar um exemplo. O nosso presidente da CBF, em 2009, falou que só de estádios nós gastaríamos R$ 2,5 bilhões. Hoje, esse gasto já está em R$ 5,8 bilhões, e a previsão do Ministério dos Esportes é de que vai chegar a R$ 7 bilhões no final de julho. Detalhe: o Brasil ia gastar R$ 2,5 bilhões e não ia usar dinheiro público. Já estamos quase em R$ 7 bilhões e tudo com dinheiro público.

A previsão da CBF em 2007 era de que a Copa custaria cerca de R$ 10 bilhões para o Brasil…

Eu vou te falar uma coisa com certeza. O valor de todas as obras para a Copa do Mundo vai chegar a R$ 100 bilhões. Pode escrever o que eu estou te falando hoje. Aí eu pergunto: um país que vai gastar R$ 100 bilhões em um evento como a Copa não poderia gastar ao menos 20% desse dinheiro, o que seria viável, e colocar nos nossos hospitais públicos, nas nossas escolas, em instituições como Apae e Associação Pestalozzi, que precisam? Não precisava nem ser 20%. Com 10% desses R$ 100 bilhões você resolve, talvez, 80% dos problemas dessas áreas em cada Estado. Tem ainda outra coisa. Quando se fala em obras de mobilidade urbana, não vejo ninguém falar em acessibilidade. Acessibilidade no Brasil é só para quem é cadeirante, fala-se só de rampas e de elevador. Só que tem cego, tem surdo, tem mudo, obeso, tem vários outros tipos de deficiências que rampas e elevadores não vão ajudar. A Fifa pede, no caderno de encargos, que seja feita acessibilidade nos estádios. Mas a Fifa não fala disso nos aeroportos e nem nas obras nas cidades. Enfim, nós vamos gastar R$ 100 bilhões e não vamos ajudar muitos que precisam.

Como você fez essa projeção de R$ 100 bilhões de gastos com a Copa?

Estou projetando porque uma pessoa dentro do Senado já fez essa projeção. Daqui a pouco eu vou provar isso para vocês. E só fica nesse valor se a gente não entrar no processo de obras emergenciais, porque aí vai passar muito mais desse valor. A minha grande batalha é para que, com o tanto de dinheiro que vai ser gasto no Brasil, nas 12 cidades-sede, a gente consiga melhorar tudo para o povo. Qual o legado que isso tudo vai deixar? Estádios bonitos? Aeroportos bonitos? E o transporte, a saúde, a educação, as crianças que usam drogas? Ninguém fala nada sobre isso. Parece que o Brasil agora virou só Copa do Mundo e Olimpíada.

Informações de portal R7

FOTO: reprodução / iG

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2 comentários

  1. eduielardo de souza maciel
    4 de julho de 2011

    e revoltante….um pais que o povo morre na fila da saude,nada funciona,tudo e precario,uma guerra nas ruas,educaçao do seculo passado de pessima qualidade…..so vai ser realizada no brasil pq vai ser a maior roubalheira da historia…bilhoes serao roubados…vai ser uma copa de arromba..arrombando os cofres do brasil….mas aqui tudo pode nesse povo amorfinado….

    Responder
  2. João dos Santos Filho
    23 de julho de 2011

    TURISMO BRASILEIRO, SEU NASCIMENTO COMPROMETE SUA EXISTÊNCIA
    João dos Santos Filho
    O processo de existência da humanidade é resultado do movimento histórico, iniciado nas relações sociais, alimentadas pelos interesses de poder político, econômico e cultural. Com isso, entendemos que o processo histórico é constituído de “[…] formas moventes e movidas da própria matéria: formas de existir, determinações da existência” (LUKÁCS, 1978, p. 3). Assim, alertamos que nada ocorre ao acaso, como se fosse, obra do destino, mas sim, é produto de uma trajetória histórica dialética determinada pelas relações de produção e forças produtivas.
    Com isso, descartamos que o fenômeno turístico seja uma atividade eminentemente burguesa e restrita a uma determinada classe social, que a toma como produto do desenvolvimento do capitalismo. Tal percepção é muito mais comum do que pensamos, pois se analisarmos as tentativas feitas pelo Estado brasileiro para trabalhar o fenômeno do turismo, percebemos que os motivos são de irresponsabilidade político pedagógica, como pode ser percebido de forma mais explicita, nas propostas ou medidas com esse perfil adotadas pelo Plano Nacional de Turismo de 2003 até 2014. As atividades eletivas para a intervenção são imediatistas e casuísticas e dirigidas somente para o turista estrangeiro, fora de qualquer plano global que leve em conta o conjunto do turismo nacional e das “Políticas Publicas” nesse setor.
    Declarar que a Política Nacional de Turismo e sua estrutura política administrativa burocrática são comandadas por políticos de carreiras e profissionais duvidosos que foram indicados por políticos barganhadores de seu apoio ao governo de sustentação a Dilma Rousseff. Constitui-se em uma máxima verdade que é verdadeira, mas não explica na totalidade histórica do fato e, portanto, não chega à verdade, pois confunde a aparência com a essência dos fatos. E fornece uma resposta simplista para um fato social que necessita ser abstraído pelo sujeito com o objetivo de compreender todas as variáveis que compõem aquele fato social.
    A compreensão exata desse processo de aberração para com o comando da burocracia do Estado brasileiro no campo do turismo, só pode ser compreendida quando nos reportamos à revolução de 1930 com a entrada de Getúlio Vargas no comando do Estado brasileiro, rompendo com as antigas oligarquias latifundiárias mineiras e paulistas, que perdem seu poder dirigente do Estado brasileiro, dando lugar à lógica de reformas para um capitalismo reformista.
    Em 1939 Getúlio consegue estabelecer as diretrizes do Estado Novo, isto é, remodela a organização do Estado brasileiro na figura e entorno de sua própria pessoa e do turismo, como o pai dos pobres e faz uma política voltada para preparar a “força de trabalho” para ingressar no processo de industrialização. Para isso necessita de um Estado forte e hegemônico em uma fala política em que o processo de inculcação ideológica – o chamado getúlismo organizado pela Divisão de Imprensa e Propaganda se torne a espinha dorsal de seu comando político.
    O Estado Getulista necessitava após a implantação da Ditadura, dizer para que e por que dominou o aparelho de Estado e escolher quem seriam seus interlocutores principais. Para isso, criou, em 1939, o Departamento de Imprensa e Propaganda – DIP, como instrumento capaz de centralizar e direcionar a ideologia do “Estado Novo” junto à população em geral e aos trabalhadores em particular. E graças à atuação “insolente” de bastidor e própria da juventude da época, a filha de Getúlio, Alzira Vargas, conseguiu impor a criação da Divisão de Turismo como uma preocupação do “Estado Novo” (SANTOS FILHO, 2007, p.1)
    Atendendo a um pedido de Alzira sua filha que, coadunavam com os interesses do Estado Novo o turismo surge como um novo e interessante instrumento capaz de auxiliar no controle ideológico da massa trabalhadora e setores da burguesia. O turismo na história mundial tem um passado marcado pelos Estados ditatoriais começando pelo governo da Alemanha e Itália em 1937, as primeiras ditaduras a terem férias totalmente financiadas pelo Estado para a classe operária para cultuar a pátria através das viagens (turismo social). Foi aproveitada pelos partidos nazistas e fascistas como forma de dominação ideológica das massas em torno de um líder.
    Nesse sentido, a Divisão de turismo é usada pelo Estado brasileiro como uma das formas de controlar a imagem que era divulgada sobre o chefe de Estado e o próprio Estado getulista. Nesse aspecto é que o governo getulista usa o turismo nessa mesma época para garantir a imagem de um governante moderno, audacioso, nacionalista, voltado para as necessidades das classes trabalhadoras e com ampla aceitação popular, segundo documentos da época o turismo e responsável por:
    Superintender, organizar e fiscalizar os serviços de turismo interno e externo […] plenamente justificadas pelos recursos que o Brasil oferece nesse setor, dada a extensão do seu território, a riqueza dos seus aspectos naturais, seu clima variado e suas águas medicinais, suas preciosidades históricas e, sobretudo, toda essa civilização nova que se processa em ritmo acelerado, colocando o nosso país numa situação verdadeiramente privilegiada (Revista Cultura e Sociedade, ano II n. 21, novembro de 1942, p. 184).
    Com a idéia de Estado Novo que esta facilitando o aparecimento de uma civilização nova, o turismo se configurava como instrumento cívico:
    […] que se incumbia de receber e assistir os visitantes estrangeiros, facilitando-lhes o acesso aos pontos mais interessantes das nossa urbs, ao mesmo tempo que, por meio de vistosos cartazes e folhetos com informações detalhadas sobre os pontos mais atraentes do país, fazia a propaganda externa, com o propósito de melhor atraí-los à nossa terra (Revista Cultura e Sociedade, ano II n. 21, novembro de 1942, p. 172).

    Conclusões
    O Brasil, triste história de um Estado que utilizou o turismo como instrumento para o controle social dos brasileiros e estrangeiros, pois só servia para engrossar as manifestações operarias para “promover, organizar, patrocinar ou auxiliar manifestações cívicas e festas populares com o intuito patriótico, educativo ou de propaganda turística, concertos, conferencias, exposições demonstrativas das atividades do governo” (Revista Cultura e Sociedade, ano II n. 21, novembro de 1942, p. 173).
    O turismo foi colocado dentro do Estado Novo em 1939, junto ao Departamento de Imprensa e Propaganda – DIP, como uma atividade que vive e sobrevive para controle do individuo. Portanto, se torna o lócus onde o Estado usa esse espaço para cumprir acordos políticos, nomeando para ocupar os cargos administrativos apadrinhados ou políticos de segunda grandeza que usam o cargo para galgar outras funções na estrutura do Estado.
    Por isso o turismo é considerado uma atividade que politicamente serve como elemento de troca, ou seja, é usado como moeda podre no arranjo para acomodação dos interesses políticos do Estado brasileiro. Nesse caso, suas ações são paliativas, obscuras e de lesa-pátria, um verdadeiro instrumento de ajeitamentos para agregar os estapafúrdios e complexos movimentos de bricolagem da política brasileira.

    BIBLIOGRAFIA
    LUKÁCS, Georg. As Bases Ontológicas do Pensamento e da Atividade do Homem. In Revista Temas de Ciências Humanas. São Paulo: Ciências Humanas, nº 4, 1978.
    SANTOS FILHO, João dos. O turismo na era Vargas e o
    Departamento de Imprensa e Propaganda. Disponível em: Revista digital. Buenos Aires. Ano 12. N. 114. Noviembre de 2007. http://www.efdeportes.com/efd114/o-turismo-na-era-vargas-e-o-departamento-de-imprensa-e-propaganda.htm. Acesso em: 10 julho. 2011.
    CULTURA POLÍTICA. Revista Mensal de Estudos Brasileiros. Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa e Propaganda – DIP. Ano II, n. 21, 10 de novembro de 1942,

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