Ser professora: “Nunca pensei em outra coisa”

novohamburgo.org – Qual sua idade nesta época e por que a opção pelo magistério?

Marie Traude – Quatorze anos. Nas minhas memórias mais longínquas, me pego falando “eu vou ser professora”. Nunca pensei em outra coisa e acho que nasci com a fôrma. Fui fazer magistério no Santa Catarina em uma época que ainda não havia estágio. A gente se formava e ia trabalhar.

Era a época do governador Leonel Brizola. Nós professores entrávamos no Estado por contrato e, para firmar este contrato, entre os documentos exigidos estava o título de eleitor e eu não tinha porque tinha 17 anos. Por isso, a escola onde estudei e da qual eu faço parte da comunidade evangélica, que é a Escola Oswaldo Cruz, convidou-me, através da diretora, dona Gladis, a trabalhar na escola. Comecei minha vida profissional na Escola Oswaldo Cruz.

Lá, trabalhei dois anos e meio, pois em agosto de 61 tomei posse no Estado, na 2ª Delegacia de Ensino, que hoje é a 2ª Coordenadoria Regional de Educação. Tomei posse e fui trabalhar em um grupo escolar chamado Vila Campina, aqui em Novo Hamburgo, onde hoje está a Escola Professora Luíza Teixeira Lauffer.

novohamburgo.org – No bairro Liberdade?

Marie Traude – Isto, lá no alto do morro. E lá era muito bom, e não havia nada ali, era só a escola no alto do morro. A gente descia do ônibus na BR-116 e ia a pé por uma estrada de chão batido. Lembro que havia um pontilhão que, quando chovia, a gente tinha que tirar o sapato, porque ali inundava.

novohamburgo.org – Por onde passa o arroio Gauchinho?

Marie Traude – Isto, o Gauchinho passa ali. E era no alto do morro, perto do campo, uma maravilha! Os alunos brincavam no campo. Era um tempo que, se passassem dois ou três dias que o aluno não ia à escola, a gente ia até a sua casa para saber o que aconteceu. Eram outros tempos, havia uma proximidade com a família diferente de hoje.

Era um tempo que, se passassem dois ou três dias que o aluno não ia à escola, a gente ia até a sua casa para saber o que aconteceu.

novohamburgo.org – Todo mundo se conhecia?

Marie Traude – É, apesar de que a gente não conhecia todos os pais. A comunidade a qual a escola atendia era de baixa renda, era uma comunidade carente. Depois, fui trabalhar na escola da Vila Jaeger, onde fiquei um ano também e depois fui pra Escola Estadual Otávio Rosa, maravilhosa. Apaixonante aquela escola. Na época, era diretora a senhora Noêmia Ruschel, que foi uma pessoa muito marcante pra mim como modelo de direção, e eu buscava muito exemplos.

Eu fiquei lá até o ano de 1967. Na verdade, até o final de 66 no Otávio Rosa e tenho gratíssimas memórias de lá. Na mesma época, a diretora da Oswaldo Cruz, a dona Gladis, conversou com o meu marido. Ele tinha uma casa de negócios, um hotel e uma mercearia defronte à escola, ali na ponta do calçadão. E a dona Gladis perguntou se eu não queria voltar como cedida do Estado. Naquele tempo, havia uma coisa muito boa: o Estado fazia a compra de vagas nas escolas particulares. Se a escola desse 25 vagas por um professor, o Estado cedia a professora, e foi assim que eu entrei.

novohamburgo.org – A sua cedência abria vagas na escola?

Marie Traude – Sim, abria vaga para os alunos. Então, veja o valor que tinha uma professora naquela época, em vista de hoje. Era uma solução bem interessante. E hoje o preço da professora está muito defasado, enquanto o preço do aluno subiu muito. Está muito caro o preço das escolas particulares.

Hoje o preço da professora está muito defasado, enquanto o preço do aluno subiu muito.

novohamburgo.org – Na sua época, provavelmente, a mensalidade talvez não fosse 100% do que custa hoje.

Marie Traude – Não era nem 10%. Sobre a Escola Oswaldo Cruz, lembro que fui chorando pra lá, pois foi uma escolha sofrida. Mas pra mim, tudo era perto da Bento (rua Bento Gonçalves). Minha casa era na Bento, meu marido trabalhava na Bento, o médico era na Bento. Comecei um trabalho lá na Oswaldo Cruz, que foi marcante na minha vida, e lá fiquei por 27 anos.

Éramos uma equipe de professores cedidos, todos tinham vindo de escolas públicas e nos juntamos na Oswaldo Cruz, que era uma escola de comunidade na época, e trabalhávamos maravilhosamente bem. A gente trabalhou com crianças de famílias estruturada, solidamente estruturadas. Era outra estabilidade. A escola não tinha tanta necessidade de chamar os pais à escola como tem hoje.

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