Amor cultural e pimenta na poesia

Como a poesia surgiu na sua vida?

Ione Jaeger – Tem que levar em consideração que eu não sei (risos). Eu não faço comparação da minha terra com esta aqui, pois em toda a comparação há sempre um grau de inferioridade. Mas eu vim de uma terra conhecida. Vocês sabem como é a Bahia. O próprio clima é uma poesia. Eu morava na praia, saía de casa e estava no mar. Coisa mais bonita era, no final da tarde, ir para a praia e ficar vendo aquelas ondinhas no mar. Aquilo tudo é uma poesia. É uma poesia ver aquele Carnaval, o Bloco das Viuvinhas, tudo é muito poético.

Eu escrevi minha primeira poesia quando tinha 13 anos. Fiz uma poesia chamada Você. Claro que era para um namoradinho, não é? Não sei onde essa poesia foi parar. Mas naquela época não se namorava, no máximo mandava bilhetinhos. Eu não acredito, pode até ser que exista, de alguém dizer que quer ser poeta. Quando ele vai escrever a poesia, a poesia já está dentro dele há tempo. Até nasceu com ele.

O grande ícone da educação em Novo Hamburgo foi o professor Ernest Sarlet. Já na cultura, um dos grandes ícones é a professora Ione Jaeger. A senhor acha que isto é justo?

A palavra cultura está ligada ao que faço, não por eu ser cultura.

Ione Jaeger – A modéstia vai dizer não. Mas não sei se é justo ou não. Uma das coisas que achei interessante foi na Câmara, faz algum tempo, e disseram que a Ione era sinônimo de cultura. Aí fiquei pensando, por quê? A palavra cultura está ligada ao que faço, não por eu ser cultura. Muita gente fez cultura aqui em Novo Hamburgo, na literatura, no teatro. Acho que isto é uma ligação da palavra cultura com o que faço.

Sendo a senhora um ícone, o que lhe dá uma grande responsabilidade, é possível realmente se desligar da liderança da Acaart?

Ione Jaeger – Eu já não ando mais a pé, estou gastando um dinheirão de táxi para ir de um lado para o outro (risos). Mas tenho pensado muito nisso e penso mesmo. A Acaart nasceu de um momento em que senti a necessidade de unir as pessoas da cultura. Havia muita desunião, um não gostava do outro.

Em 1997, comecei a promover alguns encontros. Em 20 de fevereiro, foi a criação da Acaart. De lá para cá, vem sempre aumentando e eu não consegui parar. Fui presidente até 2002, mas meu medo é que eu morro e a Acaart morre comigo. E eu quero a Acaart viva por muitos anos. Larguei a presidência em 2002, em julho, e a menina que me sucedeu ficou até maio de 2003. Aí ela levou na minha casa todo o material da Acaart de novo. Depois, o outro presidente ficou um ano e depois foi na minha casa de novo, também com todo o material. Aí peguei a presidência de volta em 2004. Peguei de volta porque ela iria morrer.

Agora, se eu vou largar em definitivo, eu não sei. A Acaart é como uma seiva que corre na gente, que alimenta. De certa forma, eu não gosto quando dizem que sou baiana de nascimento e gaúcha de coração. Não é de coração, é de razão. Tive oportunidade de ir embora várias vezes, mas não fui. Para mim não existe lugar melhor, o melhor está em mim.

A senhora disse que não gosta de comida apimentada. Agora, nas suas poesias a pimenta é um ingrediente certo. De onde surgiu esta característica?

Toda a minha poesia, é de protesto, sexo, pimenta mesmo, mas não pornografia.

Ione Jaeger – Eu tenho uma novela editada em Portugal, que é virtual. O nome dela é Patativa Gouveia dos Guimarães D’Alecrim. Está no site do Cá Entre Nós. Lá tem o comentário de Joaquim Monks que melhor viu esta característica. Toda a minha poesia é de protesto (pessoal, não social), sexo, pimenta mesmo, mas não pornografia. Eu digo sempre que sou pornofônica, não pornográfica. Também não consigo escrever essas melosidades de amor que muita gente escreve.

E outra: eu tenho vergonha de dizer isso em público, mas a minha cabeça é masculina. É sim. E eu até sei por que. Isto não é de graça. Eu nasci entre homens. Com o mais velho, jogava bola, jogava botão, largava pandorga na praia, era um molequinho como ele. O mais novo era um menino que brincava comigo de boneca, de casinha. Então peguei a masculinidade do mais velho e passei a feminilidade ao mais novo. Nós brincávamos de namorados, que eram os troncos das bananeiras, e ele era mulher, mas nem por isso ele mudou de lado. E nem eu.

O que eu não sou é dondoca. Por isto que as poesias ficam assim apimentadas. Fui chefe de família, nunca dependi de ninguém. Nem morta! Deus me livre ter que parar na casa de um filho e depender de alguém. Sempre tive a minha casa e meus irmãos quase todos vieram morar comigo ao longa da vida.

Agora vocês conhecem a Ione bastante. Só não conto o que não deve ser contado.

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