O dia em que marcou Romário

Nos fale primeiramente sobre a sua infância, sua ascensão profissional e sua vinda para Novo Hamburgo.

Eugênio Paes Amorim – Eu nasci em São José do Norte, cidade histórica localizada do outro lado da Lagoa dos Patos, lá perto de Rio Grande. Tive a felicidade de me criar no sistema antigo, e fui uma criança do interior, lidando com gente simples, lidando com o povo, que é o que mais faz falta hoje para promotores e juízes e para muita gente que tem poder. Estudei sempre em escola pública, municipal e estadual. Em estadual também no 2º grau.

Fiz o vestibular na PUC em 1984, cursei apenas um semestre e tranquei, porque resolvi ir para o Rio de Janeiro jogar futebol. Morei seis meses lá. Aí desisti, voltei, terminei a faculdade em 1990, passei no concurso para o MP em 91, e comecei a trabalhar como promotor. Estive em 92 em Criciumal. Em 93 fui para Farroupilha. Em 94 Soledade, em 95 Camaquã, em 96 Mostardas e Palmares do Sul e, em 99, vim para Novo Hamburgo, onde estou até agora e não pretendo sair mais. Apesar de já ter podido ter uma promoção há muito tempo, aqui estou bem, o trabalho está rendendo e eu vou ficando.

Chegou a cogitar ser juiz? A propósito, o promotor Amorim seria um bom juiz de direito?

Amorim – Não, eu seria um péssimo juiz. É como na política: tem o cara talhado para o Executivo e o cara talhado para o Legislativo. A comparação é pertinente, pois o promotor é como um cargo legislativo, tem que estar sempre na luta, brigando, postulando, enquanto o juiz já é executivo e tem que ter uma outra visão das coisas.

Para presidir uma audiência tem que ter mais sobriedade, ao menos aparente, tem que ter uma postura bem diferente do promotor, porque o juiz não combate ninguém. Ele obrigatoriamente tem que ter uma frieza que não é bom que o promotor tenha. Então é melhor fazer parte da luta do que ficar arbitrando ela.

Penso que socialmente eu sou muito mais útil como promotor do que jogando bola.

Sobre esta passagem pelo Rio de Janeiro como jogador, como aconteceu isto?

Amorim – Eu gostava de jogar futebol e jogava bem. Aí meu pai conhecia alguém lá do Vasco da Gama e fui fazer um teste com os jogadores, inclusive com o Romário. Temos a mesma idade, apenas 15 dias de diferença. Inclusive tive que marcar ele.

E foi uma experiência muito difícil?

Amorim – Não, ele não corria. Era o mesmo de hoje, mesmo com 19 anos. Não fez gol no jogo, mas não foi por minha causa, porque se ele quisesse eu estaria perdido. Mas aí houve um infortúnio de saúde e eu tive que me afastar dos treinos.

Então fui para o Botafogo, e aí sim estava jogando, estava bem, pronto para ficar. Mas teria que morar em São Gonçalo, que é perto de Niterói, estudar na Gávea e jogar futebol em Marechal Hermes, o que era inviável para um guri pobre, que andava de ônibus. Só para Marechal Hermes era uma hora e dez minutos de ônibus.

Ainda passei numa peneira do Internacional. De mil guris apenas eu e mais um passaram. Mas aí me machuquei e vi que não era pra mim, meu negócio era outro. Mas se eu fosse olhar para o ponto de vista pessoal, sendo individualista, tem um monte de cabeça de bagre que jogam menos do que eu jogava e estão ganhando rios de dinheiro na Europa.

Como não penso muito nisso, e esta é uma divergência que tenho de algumas pessoas – o meu desapego ao dinheiro -, penso que socialmente eu sou muito mais útil como promotor do que jogando bola.

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