Caso Sanfelice e a fama de pavão

Nós assistimos recentemente ao julgamento de um dos casos com maior repercussão em Novo Hamburgo, que foi o da morte da jornalista Beatriz Rodrigues. Seu trabalho foi bastante elogiado e as pessoas lhe enxergam como competente, vaidoso, carismático. Diante disto, como o senhor trabalha a questão dos holofotes da mídia para manter o equilíbrio que sua função exige?

Amorim – É importante falar sobre isso. Essa história da vaidade, de ser pavão, de gostar de aparecer, é uma acusação que sofro e que não vem só daqui, já vem de outros lugares, mas este julgamento é uma marca no meu comportamento pessoal. Quem me conhece, ou ouviu a minha entrevista ao final do julgamento, com todo mundo me elogiando, viu que ressaltei que se tratou de um trabalho de equipe, dos meus estagiários, da polícia, do IGP.

Evidente que, se eu falhasse, falharia tudo. O momento decisivo era meu. É como no futebol: você joga muito bem, mas se o centroavante não fizer o gol você não ganha. Só que ele não joga sozinho. É importante falar isso, porque todo mundo é vaidoso, uns um pouco mais, outros um pouco menos. Todo mundo gosta de fama, de poder, de holofote.

Hoje estou em uma situação especial. Saio na rua em Novo Hamburgo, e outro dia até brincava com a esposa que se o Gianecchini passar do meu lado o pessoal não vai ver ele. Eu entro no supermercado e é cumprimento, cumprimento, cumprimento. Pessoas que eu não conheço. O sujeito que disser que isso é ruim, que ele não gosta disso, é porque está louco, ou ele é mentiroso, hipócrita. Mas aprendi muito, principalmente naquele júri, sobre humildade, espírito de equipe.

Se o sujeito que se consagra for muito arrogante, ele não tem a ganhar com isso, ele perde, perde a simpatia de alguém que possa admirá-lo. Então eu tenho segurado bem a vaidade, que é grande. Promotor de júri então… um dia que um promotor de júri negar a vaidade, será mentira. As pessoas mais vaidosas do meio jurídico são os promotores. Mas eu não me importo, porque se o cara não faz é incompetente e, se o cara é bom, trabalha bem, é porque gosta de aparecer.

Pra ter vaidade, tem que ser bom. O incapaz vaidoso é imperdoável.

Eu gosto de aparecer em jornal? Gosto sim, mas não é só isso. Divulgam os júris, os crimes. É como essa barbaridade que aconteceu no Rio de Janeiro (se refere ao menino que morreu arrastado por um carro dirigido por criminosos). Daqui a um ano ou seis meses não vão divulgar o que aconteceu de fato com os autores daquilo ali. Não divulgam que o Brasil não tem uma política para combater o tráfico de drogas, que está diretamente ligada a aquilo ali. Então temos que divulgar o que fazemos também.

Me chamar de pavão, de vaidoso, não tem problema. E agora vou ser um pouco arrogante: pra ter vaidade, tem que ser bom. O incapaz vaidoso é imperdoável.

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