A arte não se faz mesmo sem amor

novohamburgo.org – O senhor tem uma frase em que diz: “Amor se faz mesmo sem arte, arte não se faz mesmo sem amor”…

Scheffel – Exato. Eu estava lendo textos do Roessler. Textos muito bonitos. Mas não sabia mais parar. Eu não sabia como dar um ponto final. E eu interferi e disse isso como um ponto final. Foi muito oportuno.

novohamburgo.org – Uma pessoa que deixa para a humanidade um legado tão forte como a sua obra, quais são os amores que o senhor carregou em sua vida, e quais são os amores que o senhor tem em sua vida?

Scheffel – A coisa é complexa, e eu gosto de ser eclético. Quando eu estava evoluindo, na adolescência e juventude, era mal visto o ecletismo. Se criticava, porque se pensava que se a pessoa tem mais de uma atividade técnica, ela não teria a mesma força. Eu sou o contrário. Eu sou ótimo em todas elas. E eu empreendi sempre com a mesma aplicação e perfeccionismo. Esse exercício é que nos desenvolve, justamente.

As linguagens são muitas e às vezes bem separadas, como a música das artes plásticas. Tanto que não houve nunca um artista que fosse ótimo em ambas. Nunca houve. Eu me sinto o primeiro caso. Porque estou profundamente me aplicando. Quer dizer, a música, da parte do contraponto, do todo, do clima, do tema, da elaboração eterna, com todos os recursos do tema que pode caminhar para trás.

Não houve nunca um artista que fosse ótimo em ambas (música e artes plásticas). Nunca houve. Eu me sinto o primeiro caso.

Eu realizei uma fuga, agora, dedicada a aquela cidade de onde vem meus antepassados. Eu reelaborei uma canção deles que vem do ano de 1200. O texto e a melodia. E lá alguém harmonizou de um modo muito simples, e eu achei muito bonito. Peguei e reelaborei com orquestra de um modo bem amplo, colocando a mesma música dentro e achei que ficaria bem em uma fuga.

Depois, eu peguei uma das composições mais conhecidas de Bach (cantarola a melodia da música)… e de trás para frente fica diferente. Você quase não reconhece. Quem conhece muito percebe: “Tem algo que eu conheço, mas não consigo identificar”.

Então, construí toda uma fuga muito trabalhada, sonoramente também, com a minha sonoridade. Basicamente, Bach é talvez o compositor que, não é o único, não se pode dizer que seja o único, pois há outras obras que estão muito próximos da alta qualidade profunda de Bach. A estrutura, a fantasia, a sensibilidade. Tem tudo!

Como meu professor, o segundo professor lá em Florença, que dizia para mim: “É um anjo na história da música! Não se pode fazer uma crítica.” Ele provou tudo o que se pode provar. Se amanhã você coloca outro instrumento na estrutura, mas isso não acrescenta. Por isso eu estou querendo fazer uma regressão.

Já me disseram o nome de uma pessoa em Porto Alegre que faz. Um psicólogo. Porque foi dito que sou a reencarnação de um outro artista italiano. É possível que eu tenha sido também um dos construtores de enxaimel, porque o que veio para cá escreveu dois versos em suas casas. Um ele repetiu e a outra não. Percebe-se já o filósofo, além das frases bíblicas que se colocava entalhadas sobre as vigas. Porque o enxaimel é construído assim, em vigas, pelo chão, com encaixe e, depois, com mais homens, é levantado e colocado no lugar.

novohamburgo.org – Esse êxito, tanto na música, quanto na pintura, o senhor atribui a talento, vocação ou é a muito estudo?

Eu não sei por que, mas possivelmente eu já fiz isso no passado.

Scheffel – Eu acho que a vocação é generalizada. Mas em geral se pega um desses caminhos e desenvolve. Eu não sei por que, mas possivelmente eu já fiz isso no passado. Quando acontece isso, é porque a gente tem experiência.

Quando expus a minha visão de mundo na Alemanha, em 2004, veio uma senhora, pastora e disse: “olha, eu li – foi traduzido em alemão – mas o senhor não conclui”. E eu expliquei que de fato não, pois estamos sempre em trânsito. “Posso levar outras pessoas para fazermos algumas perguntas?”, ela questionou. Então, fomos lá, com um grupo de umas 15 pessoas. E no final ela me perguntou: “O que faz com que nós melhoremos?” Tempo e a experiência. É o exercício que nos desenvolve.

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