"A TAM, emocionalmente, foi negligente"

1008_lucas11novohamburgo.org – Mas vocês já sabiam que o deputado havia embarcado naquele vôo?

Lucas Redecker – Sim, sim, sim! Minutos antes de ele embarcar, tentou trocar a passagem para ir a Guarulhos e não Congonhas. A secretária dele tentou. E no aeroporto ele tentou de novo e não conseguiu. Aí cheguei em Novo Hamburgo e fui para casa. E quem dorme? Minha avó ligou e fui para casa dela. Cheguei lá e estava toda a família junto.

Nisso, liga a mãe e pede um monte de coisas, de raio-X, que seria necessário para identificação do corpo. Aí fui para casa e fiquei umas duas horas abrindo gavetas. Recolhi tudo e no outro dia de manhã mandei para São Paulo.

Mas eu só fiquei sabendo quase quatro horas depois e compreendi mesmo que o pai tinha morrido quando vi as imagens na televisão. Aí que eu entendi tudo. Quem é que sobrevive a um avião que explode? Um avião caindo, dificilmente alguém sobrevive. Então, imagina com uma explosão como aquela!

A partir daí, começaram várias ligações. O telefone dele nunca parava, eram lideranças no estado inteiro que apoiavam ele e amigos pelo Brasil inteiro. E essas ligações transferiram para nós. E desde então eu não parei. Ligam, querem saber, querem que eu vá visitar, querem saber se eu vou continuar.

Uma das minhas preocupações é que o pai tinha um gabinete e os funcionários. E na Câmara o negócio é o seguinte: morreu hoje, amanhã já não existe mais nada de dinheiro. Então é uma preocupação que eu tenho. São pessoas competentes, então vamos encaminhá-las. São várias pessoas que em qualquer lugar se encaixam porque sabem trabalhar. Entre várias coisas que vêm me ocupando depois de tudo, uma é a questão política do pai. A vida muda de uma hora para outra. É difícil…

O primeiro contato que a TAM teve foi quando o corpo do pai chegou aqui.

novohamburgo.org – Como está o relacionamento com a TAM? Eles procuraram a família Redecker? Falaram em algum acordo?

Lucas Redecker – O primeiro contato que a TAM teve foi quando o corpo do pai chegou aqui. Uma pessoa me entregou um papel com três telefones. Até o enterro do pai, não recebemos uma ligação sequer. Conseguimos despachar tudo por interesse nosso. O que a TAM fez foi colocar um avião à disposição. A mãe veio de São Paulo para cá e não foi pela TAM.

A TAM, de certa forma, emocionalmente, foi negligente. Depois que o pai foi enterrado, a mãe recebeu uma ligação do vice-presidente da TAM, se colocando à disposição. Em termos financeiros, eles pagaram as despesas do funeral.

Uma pessoa me ligou em duas oportunidades, na semana passada, colocando à disposição ajuda psicológica ou médica, e que mandaria pelo correio dados do seguro. Desde então não recebemos mais nenhuma ligação ou correspondência. Eu sei que existe um seguro, não sei qual o valor e nós também não tomamos ainda nenhuma providência. Estamos esperando que sejam apuradas as investigações, e que os culpados sejam punidos.

Nenhum dinheiro vai trazer o meu pai, mas espero que as conseqüências façam com que os culpados tenham respeito aos passageiros, aos usuários do transporte aéreo e que isso nunca mais se repita.

novohamburgo.org – O Júlio andava muito de carro e de avião. Em outra oportunidade foi vitimado por um acidente de carro. Não deve ter sido fácil pegar um avião para ir a Brasília na sessão solene.

Lucas Redecker – O pai nunca gostou de andar de avião. E eu não sou diferente.

Depois do acidente, só voei de TAM. Fui e voltei a Brasília de TAM.

novohamburgo.org – E tu estás preparando para seguir este mesmo caminho de viagens aéreas e rodoviárias?

Lucas Redecker – Eu tenho medo de andar de avião, mas sempre que precisei andar, andei. Depois do acidente, só voei de TAM. Fui e voltei a Brasília de TAM. Eu tinha que recolher papeladas, fechar quarto do pai, e a TAM nos deu a passagem para fazer isso.

Mas eu não tive nenhuma vontade de ir de avião. É inevitável pensar em tudo. Mas na vida a gente tem que superar os medos. E não é o avião. Tem muita gente que anda de avião a vida inteira e nunca aconteceu nada. Fatalidades podem acontecer conosco em qualquer esquina. Claro, não há como não ficar preocupado.

Turismo
home_central_vertical