A hora da despedida

Entrevista realizada no dia 05/12/2006, na redação do portal novohamburgo.org

O que você leva para Portugal de Novo Hamburgo?
Principalmente a lembrança do voltar. Eu sentei na Ginástica e o presidente me disse assim: “Tu sabes que as portas estarão abertas”. E eu tenho certeza de que Novo Hamburgo me acolhe tranqüilamente. Me sinto muito bem com isso. Até porque, acho que é uma coisa recompensadora. Talvez a cidade se orgulhe de que eu esteja na seleção portuguesa, mas eu tenho certeza de que, se eu vier fazer um trabalho de vôlei aqui em Novo Hamburgo, eu ainda tenho colocação para fazer isso. No ano retrasado, nós ficamos em terceiro com a On-line. Não mudou tudo de quando eu ganhava pela Ulbra, mas o simbolismo de conquistar um título dentro da tua cidade é outra coisa.

Mas tu te recordas dos campeonatos gaúchos?
Eu tive que apresentar o currículo lá em Portugal. Eu tenho um cara que faz este trabalho no site www.treinadores.com. Ali consta que aqui no Rio Grande do Sul eu tenho 14 títulos. Parece que eu sou o cara com mais títulos regionais no Rio Grande do Sul, podendo somar qualquer esporte, futebol, vôlei, basquete, tênis. Só não são seguidos.

Tu deixaste muitos “filhos” no Bento, na On-line, na Ulbra e na Ginástica?
Eu fui olhar um jogo de golfe do Benfica, onde há cinco brasileiros. Lá, estou sentado e escuto “olha lá, o pai”, os atletas dizendo “ô pai”. Havia dois atletas que tinham sido campeões na Ulbra comigo. Lembro também que briguei com um atleta em Novo Hamburgo. Esse cara me incomodou, teve hepatite e ficou seis meses dentro de casa. Teve que se isolar no apartamento. Nós pegamos a mulher e a criança e tiramos, porque isso é perigoso. Terminou o ano, ele nos processou, porque a gente não pagou um médico pra ele e isso não estava no contrato. Essas doenças mais graves não tinham cobertura pelo plano de saúde. Nós, naquele tempo de 1988, não tínhamos como prever isso. Fui para a Confederação expor o caso e ele acabou tirando o processo.

Novo Hamburgo agora só pra passear por um bom tempo?
Eu acho que Novo Hamburgo é a minha casa. Vou vir sempre pra cá.

O que tu traz dos teus pais além da paixão pelo esporte?
Ser o mais honesto possível com as pessoas. Nunca tive problema com nenhuma pessoa. Não tenho inimigos, nunca dei um tapa em uma pessoa. Meus pais sempre me diziam: “Jorge, trata bem as pessoas. A educação é significativa em qualquer lugar do mundo. Sempre seja educado com as pessoas, mesmo que tu não goste de alguém”. Eu já vou para 50 anos e a educação há 40 anos era casca grossa. Quem tinha razão eram sempre os professores e não o filho. Acreditava-se muito mais nos professores, claro. Eu procurei ser sempre assim e nunca me dei mal, pelo contrário, eu estou me dando muito bem.

Nesse momento econômico, como vê essa cidade que tu gostas tanto?
O que vocês estão fazendo, acho que é uma das soluções dessa cidade. Estamos muito resumidos aos americanos e exportação, mas espera um pouquinho, e os outros? Nós temos que mostrar as coisas boas da nossa cidade e não só o que é o calçado, que tem que continuar mostrando ainda. Eu fico um tanto triste, pois com esses conglomerados econômicos não é mais o supermercado do fulano, a vendinha do beltrano. Essas coisas não existem mais. Perdeu-se um pouco a identificação. Eu diria que hoje, até economicamente falando, nós temos cada vez mais que mostrar nossa cidade, até mesmo os problemas.

E quais são os cantos da cidade que tu mais gostas?
Não tem lugar que não seja a Ginástica. A Ginástica pra mim é uma coisa, é a minha casa. Uma vez, nessas fases que eu troquei de casa, eu sempre tentei voltar pra perto da Ginástica. Hoje eu sou capaz de entrar na Ginástica e saber onde é que tem os drenos e ninguém sabe disso. As coisas do ginásio, onde foram construídas, eu sei onde estão as tubulações. Eu acho que a coisa que mais me liga à cidade é a Ginástica.

Seu Morais, o senhor Valter?
Seu Vitor… São essas pessoas aí, totalmente ligadas. Tanto que acabei casando com a filha dele.

O que você acha que precisa para o vôlei se desenvolver desde as crianças?
Todos nós precisamos de um espelho. Para fazer esse trabalho hoje, tu estás te espelhando em alguma coisa. A equipe On-line trouxe um projeto para cá fabuloso. Para iniciar atletas de qualquer esporte, tem que ser na escola. Ali que está a tua turma. O aluno experimenta vários esportes e fica mais fácil identificar qual a habilidade dele. Eu fui dar uma palestra no Colégio Pio XII, dei aula lá por oito anos. Estava comentando que o clube não pode ser um produtor do atleta, que ele tem que ser o polidor, dar a formação, porque lá está o teu amigo, a tua turminha está na escola. Praticar esporte tem que ter uma turminha. Ou tu és muito habilidoso e tem a própria filosofia. Hoje, o Viva Vôlei da On line incentiva às escolas a praticar lá dentro, nas turmas da escola.

É um núcleo social?
A Prefeitura, a primeira coisa que tinha que fazer na área da educação, era botar o esporte como obrigação. Educação física faz bem ao corpo, para a mente, para qualquer pessoa. Agora, o Paulão, o Maurício, o Carlão e o Tande estão fazendo um lobby em cima da lei de incentivo ao esporte que está há três anos na pauta do Congresso. Ela passou para a Câmara dos Deputados e agora vai para o Senado. Se aprovar no Senado, tem a assinatura do presidente.

Então a educação física será praticada duas vezes por semana?
Até três, dependendo do colégio.

E agora é uma só?
Uma e tu ainda podes escolher se queres ir na manhã lá. Assim não tem como ter progresso pedagógico. Educação física hoje é de 50 minutos, sendo que, pelos conteúdos que nós temos na educação física da faculdade, somente esse tempo não te traz retorno nenhum, nem muscular, muito menos mental.

Então deixe uma mensagem para Novo Hamburgo.
O que eu gostaria de dizer é que cada vez mais as pessoas pensassem assim como vocês, e nisso eu me incluo. Acho que tudo aquilo que vocês fizerem pela cidade, e estão fazendo como um negócio, é rentável para todo mundo. Se vocês foram bem, a cidade vai bem. Na medida em que nós acharmos mais pessoas que achem que a cidade é viável, nós vamos ter cada vez mais uma cidade mais saudável.

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