O boom do calçado e o futuro

0504_nh1Qual foi o fato mais marcante nestes 80 anos de Novo Hamburgo?

O fato mais marcante, ao meu ver, foi no início da década de 60, quando desencadearam-se as exportações de calçados. Até então, Novo Hamburgo tinha pequena produção, basicamente para o mercado interno. Essa mudança trouxe, como conseqüência, a forte industrialização nas décadas subseqüentes. Junto ocorreu o aumento populacional extraordinário, por conta dos migrantes do interior do Estado, que vieram morar na periferia do município.

O período é importante porque marca a mudança de pequena comunidade, onde todos se uniam na luta contra as forças externas e importava mais o geral do que o individual, para a imensa aglomeração humana, onde o inimigo não mais está para além das trincheiras urbanas, mas sim dentro dos próprios domínios da cidade. Prelúdio dos “tempos chegados”, todos passaram a viver na luta pela própria sobrevivência, uns contra os outros.

Naquela época, Novo Hamburgo era a China da vez, conhecida como a Manchester Brasileira. Cidades como a norte-americana Lawrence e a espanhola Elda esvaziaram-se frente ao predomínio do calçado brasileiro, produzido a custos baixíssimos, principalmente porque degradava o meio-ambiente e tinha trabalho semi-escravo.

O que hoje se fala da China, naquela época se dizia de Novo Hamburgo.

O que hoje se fala da China, naquela época se dizia de Novo Hamburgo. E o que é pior, os gaúchos acreditaram que isso nunca ocorreria em Novo Hamburgo, não sei se por estupidez, ingenuidade ou embriaguez.

Qual deve ser o futuro de Novo Hamburgo para os próximos 80 anos?

O futuro será sempre reflexo do presente. Se a região se acomodar, os próximos anos serão, sem dúvida, sombrios, no sentido de obscurecimento das idéias. Uma das melhores capacidades de Novo Hamburgo é arriscar, algo essencial para se enfrentar as crises e seguir em frente.

Se a região continuar arriscando, terá chances de superar o próprio modelo de desenvolvimento baseado na produção poluidora e semi-escrava. Saídas existem, como, por exemplo, investir maciçamente em qualificação profissional, possibilitar o aparecimento de pessoas que continuem arriscando, inovando.

Já ouvi falar que existem iniciativas para implementação de determinadas áreas, como da informática, especificamente a do desenvolvimento de softwares. Contudo, não ouço falar, ao mesmo tempo, de nada diferente, áreas que talvez poderiam ser exploradas.

O certo é que, qualquer que for o caminho escolhido, deverá passar pela qualificação da mão-de-obra. E não basta investir em escolas, ou pior, em laboratórios de informática nas escolas. Serão precisos vultosos investimentos em recursos humanos se a região quiser mesmo dar o “salto de tigre” para o futuro. No século XXI, o conhecimento será a chave que abrirá as portas.

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