Riscos à saúde humana

Contaminação traz riscos à saúde pública

Contaminação traz riscos à saúde pública

Geólogos dizem que o Aqüífero Guarani está localizado mais próximo da superfície particularmente na região do Vale do Sinos, o que o torna bastante vulnerável. Até que ponto esta característica pode resultar em contaminação?

Aí começa o grande perigo e é a minha preocupação como bioquímico e como profissional da área. Se este aqüífero está contaminado, as pessoas que de alguma forma estão tendo acesso a esta água estão se contaminando.

Quando fui trabalhar em Estância Velha nos anos 90, havia um médico que atendia as pessoas lá e havia um índice muito grande de doenças respiratórias. Ele inclusive fez um trabalho onde investiga em Estância Velha a incidência destas doenças, em período onde avançou muito o controle da poluição, porque Estância Velha era conhecida como a “Cubatão dos Pampas”. Naquele tempo, já se procurava relacionar a poluição como causa de doenças.

Quando nós estávamos fazendo investigação em Estância Velha, uma das funcionárias do Ministério Público Estadual deu a luz a uma criança com um tumor na cabeça. Por sorte, do lado de fora do crânio. Em seguida, houve um caso que exigiu a manifestação da Justiça sobre anencefalia (defeito de formação do sistema nervoso fetal que faz com que o bebê nasça sem a maior porção do cérebro).

Faça uma pesquisa no Data SUS sobre as causas de internação e a incidência de câncer em Estância Velha. Vamos começar a relacionar coisas. Se o aqüífero em Estância Velha estiver contaminado, se aqueles elementos poluentes forem conhecidos pelas suas propriedades carcinogênicas, mutagênicas, o que estamos deixando para as futuras gerações? Um aqüífero contaminado? E como se descontamina um aqüífero nesta profundidade? Se ele está sendo contaminado a 32 metros, qual a chance dele se espalhar e contaminar outras regiões onde as pessoas utilizam a água para consumo humano? Isto é muito grave.

A Utresa é uma tabela periódica.

Seria contaminação por metais pesados?

Metais pesados e outros. A Utresa é uma tabela periódica.

E o que é mais prejudicial à saúde humana?

Depende a substância. Eu perdi um aluno em um caso onde ele foi fazer a limpeza de um tanque e entrou nele para desentupir uma mangueira. Esse tanque acumulava resíduos industriais do processo produtivo e nele entrava o sulfeto de sódio, que é usado para arrancar o pêlo do boi no processo de transformação da pele em couro. Este sulfeto de sódio é neuroléptico. Quando ele está em uma determinada concentração de saturação no ambiente, não se sente o cheiro e desmaia. Meu aluno então desmaiou, caiu dentro do fosso e morreu. Um cara foi ajudar, caiu e morreu também. Um terceiro foi ajudar e também morreu. Morreram três e só não morreram cinco porque os outros dois amarraram mangueiras na cintura e puxaram eles.

Eu fui o primeiro a chegar no local e ajudei a tirar o guri de lá. Ele tinha aula comigo pela manhã no Centro Tecnológico do Couro e à tarde trabalhava ali. Então, o que começo a perceber? Uma substância que não tem uma agressividade, você manipula ela e em uma determinada concentração ela pode passar a fazer um efeito letal. E é isto que você tem dentro de uma atividade industrial como a de Estância Velha. São mais de 200 produtos químicos para fazer o couro. E entra no processo produtivo o metal pesado.

O tipo de contaminação que a Utresa acaba gerando ao meio ambiente é o resultado de poluentes que se concentraram naquela área. E ela não recebe só resíduos do setor coureiro. Ela recebe resíduos do setor químico, têxtil, metal e passa a receber resíduos que ela não poderia receber, como agrotóxicos, resíduos do serviço de saúde e resíduos internacionais que começamos a investigar.

Estavam tramando uma nova mortandade de peixes no Rio dos Sinos, além de uma emboscada para me matar.

Foram encontrados estes resíduos internacionais?

Possivelmente há. Em dezembro me procurou um senhor aqui de Novo Hamburgo que é transportador de resíduos. Ele começou a ouvir no círculo profissional de que estavam tramando uma nova mortandade de peixes no Rio dos Sinos, além de uma emboscada para me matar, porque eu era um cara que estava atrapalhando o trabalho deles. Aquela sacanagem de entrar o resíduo de qualquer jeito, o resíduo proibido que a Utresa recebia mediante o pagamento de valores que davam sustentabilidade para muita gente, aquilo estava terminando, porque havia um controle mais rigoroso com a intervenção.

Este sentimento de blindagem do próprio Ruppenthal é o que impressiona. Porque ele se sentia muito seguro para fazer o que ele fez lá e que faz parte do processo de investigação. Havia coisas lá que não davam pra aceitar.

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