Criação e experiência

Entrevista realizada no dia 19/12/2006, na redação do portal novohamburgo.org

Como ocorre o seu processo de criação?
Muitas pessoas quando escolhem alguma construção para desenhar, escolhem um prédio bonito. Elas não têm a sensibilidade de escolher uma casa antiga e desenhá-la, mostrando sua beleza. Hamburgo Velho está cheio de construções antigas que deveriam ser restauradas e tornar-se casas turísticas. Os imigrantes que vieram para cá eram pessoas com poucas condições financeiras e com pouca cultura. Então, faziam o que conheciam, mas faziam tudo com mais criatividade. O estilo enxaimel é muito bonito.

Seu carinho de Hamburgo Velho vem de onde?
Eu sou apaixonada pela Fundação Scheffel. Logo quando o Scheffel retornou, ele nos dava tinta para que pudéssemos pintar as casas. Preparava almoço para nós, de massa, lingüiça e ovo batido, um prato italiano que ele fazia. A idéia era restaurar o bairro para torná-lo mais bonito.

Além de ter o talento, o conhecimento técnico, matérias com valores agregados e o tempo necessário para cada obra, tu és um profissional que tem que ter o trabalho valorizado.

Como se molda um artista plástico?
A carreira de artista plástico não é nada fácil. Além de ter o talento, o conhecimento técnico, matérias com valores agregados e o tempo necessário para cada obra, tu és um profissional que tem que ter o trabalho valorizado. Quando alguém me pergunta por que é tão caro, eu respondo: levo semanas para fazer uma obra, gasto com materiais, pago imposto, tenho mais de 20 anos de carreira, tenho formação acadêmica como artista plástica e levo de duas a três semanas para fazer um quadro deste tamanho, quanto você imagina que eu deveria cobrar por quase um mês de trabalho? E as pessoas normalmente respondem que não haviam pensado nisso.

Como a experiência ajuda no aprimoramento?
Para um profissional de outra área que tenha 20 anos de experiência é considerado como bom tempo e é um profissional de vida estável. Um artista com 20 anos de experiência é considerado um artista jovem e é aí que ele deve provar se permanece ou não como profissional nesta área.
As pessoas têm uma visão muito romântica do artista plástico, você pode ver que há muitos profissionais iniciantes, mas poucos com experiência e, destes poucos, alguns ainda usam dinheiro da família para se sustentar e conseguir se manter como profissional do ramo das artes plásticas. Nas escolas de artes, dá para ver direitinho que, quanto mais iniciante, a pessoa acha que ela precisa somente dos materiais e só depois ela percebe que, para você ter sucesso neste ramo, é necessário a continuidade do trabalho.
Muitas pessoas acham que fazendo duas ou três aulas já são artistas plásticos, mas não é assim. Nos tornamos profissionais como nas outras profissões e precisamos de estudo e prática para isso.
Parece que somente quem tem uma visão diferente das outras pessoas a respeito do mundo é que pode ser um artista plástico, como se uma pessoa dita “normal” não pudesse ser artista plástica. Os preconceitos que temos que ultrapassar no dia-a-dia são muitos. Ao longo da carreira você perde aquela idéia romântica de que é fácil e lindo, pois como tudo na vida temos que superar muitas dificuldades.

Queria pintar quadros para chocar as pessoas com estas imagens, mas eu não consigo fazer coisas feias, é uma característica minha.

Como se cria arte?
Os conceitos a respeito da Arte de tempos em tempos mudam. No ensino acadêmico, acabou sendo uma prática ensinar a repetição e não a criação de novos estilos e técnicas. Um artista plástico também se estressa com o seu trabalho. Claro que quando se faz por hobby funciona como terapia, mas somente nesse caso.
Uma vez fui pintar a paisagem de Novo Hamburgo. Subi o morro e, quando olhei para baixo, não acreditei no que vi: era o lixão da cidade. Como a cidade produz lixo! Eu não sabia se chorava, fui para casa e não sabia o que fazer com aquela informação. Eu não conseguia entender como se depositava lixo químico no rio dos Sinos, foi como se abrissem as cortinas do palco e tu visses estes bastidores.
A partir daquele dia eu fui várias vezes no lixão. Só parei quando comecei a me sentir mal. Queria pintar quadros para chocar as pessoas com estas imagens, mas eu não consigo fazer coisas feias, é uma característica minha.

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