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A sorte bateu à porta

Por JorgeTrenz

Este relato é de um tempo em que a Pedro Adams Filho se chamava Sete de Setembro. Eu também não sabia disso! Foi lá pelos anos de 1948, conta Paulo Beck, da Bombas Beck. “Mudamos de Hamburgo Velho – onde nasci – para aquela avenida com duas pistas de basalto rosa. Tinha 8 anos.”

O pai era dono de uma pensão, que depois se transformou no hotel Beck. Ficava no primeiro edifício de Novo Hamburgo, construção de propriedade do Dr. Casemiro, um médico que virou personagem importante da história da nossa cidade. O hotel recebia até 50 hóspedes. Paulo recorda que, de segunda a sexta-feira, serviam a média de 250 completos. “O bife tapava o prato e, naquela época, quem podia comia um completo.”

Ele me conta que ainda eram crianças, mas já ajudavam a servir os clientes. A mãe trabalhava na cozinha, com outras cinco mulheres e um senhor – o foguista. “Ocupava-se com rachar a lenha e colocar no fogão para mantê-lo sempre aceso.”

No hotel, também vendiam bilhetes de loteria. Os que sobravam tinham que retornar a Porto Alegre no dia, e o encarregado de levá-los até a rodoviária era o Paulo. Numa tarde, ficou brincando um pouco mais com os engraxates no centro e perdeu o horário. “Meu pai precisou ficar com todos os bilhetes e pagar por eles. Tomei uma surra! Mas a sorte bateu na nossa porta. O prêmio maior saiu justamente para um daqueles bilhetes.”

Com 11 anos de idade, Paulo e o irmão Ivo foram obrigados a sair de casa e ir viver com parentes. A irmã mais velha fora acometida pela tuberculose – uma das primeiras contaminadas na região – e os dois precisaram ser afastados da família. Paulo foi morar na casa de um tio em Esteio, e o Ivo, em Pareci.

“Meu tio tinha a RWH Bombas e me encantei com o que se fazia num torno mecânico. Para mexer nele, entretanto, eu precisava antes varrer a oficina, limpar os banheiros e só então podia usar um equipamento velho que tinha lá. Com 12 anos já fazia todos os tipos de rosca, ensinado pelo seu Koch, um alemão que veio no pós-guerra e foi meu grande professor.”

Paulo lembra que o alemão era enérgico com os guris que estavam aprendendo a profissão. Pisava em cima dos dedos dos pés dos mais arteiros com seu tamanco. Como era um menino dedicado e que andava na linha, nunca sofreu tal castigo.

Dois anos após a drástica e repentina mudança de endereço, eis que chegou a Penicilina. A irmã foi curada – uma das primeiras também a receber o tratamento – e puderam reunir-se todos novamente sob o mesmo teto.

“Voltei para Novo Hamburgo já com carteira de trabalho e fui trabalhar no Copé. Para mim, a maior faculdade da vida. Em 1961, na Legalidade, prestei o serviço militar. Após o quartel, voltei a trabalhar com meu tio em Esteio, fazendo vários tipos de bombas.”

Atualmente a linha de produtos da empresa envolve mais de 200 modelos de bombas.

“Com a experiência adquirida no Copé, pretendia fazer mudanças na empresa, que facilitariam muito a montagem e produção. Mas o tio não aceitou, achava que estava bom da maneira que faziam. ”Eu pensei: “ok, um dia vou montar a minha empresa e fazer diferente.”

Não demorou, voltou para a cidade. Trazia uma boa reserva dos trabalhos extras dos finais de semana. “Saía nas sextas-feiras de tarde de táxi-aéreo para instalar bombas nas fazendas. Numa dessas, fomos para Santana do Livramento num avião da Varig. Chegando lá, não desceu o trem de pouso. Precisamos voltar para Porto Alegre. Nossa sorte foi que, em Guaíba, o trem de pouso desceu. Até hoje, quando viajo de avião, lembro-me daquele fato.”

Avançamos alguns anos na história, até o surgimento da Bombas Beck, em 1967. “Soube que o Copé tinha um torno antigo pra vender. Comprei e ganhei toda a ferramentaria. O pai cedeu um galpão de 25m² e foi ali que meu irmão e eu começamos.”. Nossa mãe também nos ajudou muito e as dificuldades foram enormes. Quando precisava, ela ia até São Leopoldo de ônibus buscar 250 kgs de peças fundidas por cada viagem divididas em 10 sacolas.

Para fazer os moldes das bombas no torno mecânico necessitavam de muita energia elétrica. “Como tínhamos somente monofásica, a solução foi a nossa lambreta. Adaptamos uma polia e deixávamos ela ligada. Era brabo, mas resolvia o problema” – conta entre boas gargalhadas.

“Eu tive sorte também por poder contar sempre com o apoio da minha esposa Suzana e dos meus 2 filhos, Alexandre e Alessandra. Desde pequenos eles estiveram comigo, dando duro. São eles que tocam o negócio atualmente.”

A Bombas Beck é pioneira na fabricação de bombas para tratamento de água e vende para o Brasil e exterior. Os principais clientes são grandes indústrias e prefeituras. Para encerrar, perguntei para o Paulo sobre o bairro Ideal. “É um lugar de muito progresso. Eu não troco por nada desse mundo”.

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