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Um sonho na garagem

Por Jorge Trenz

Ele não formou uma banda de rock, nem iniciou uma empresa de tecnologia na garagem, como as muitas que pipocaram no Vale do Silício. Mas foi no mesmo ambiente que Antoalci Francisco Pedro, o Chico, concebeu e estruturou a Peter Chemical. “Tinha um telefone, um fax, um sonho e uma garagem.”

O empresário nasceu em Mato Fino – limite do município de Gravataí com Lomba Grande. A sobrevivência da família exigia trabalho árduo e conjunto para manter o casal, seus quatro filhos e mais o avô. O pai tinha um caminhão e levava produtos para a Ceasa. O avô uma tafona, onde fazia farinha e, também, uma pedreira de extração de pedra grês.

A vida seguia seu rumo normalmente, mas um dia, ao chegarem em casa ele e a mãe, encontraram a casa totalmente consumida pelo fogo. Chico diz que deveria ter uns 3 anos de idade, mas a cena chocante nunca se apagou da sua memória. Reestruturaram-se com uma ajuda aqui, outra ali, e trabalho do nascer ao pôr do sol. “Passado um tempo o pai conseguiu adquirir um matadouro e, com 6 anos, eu já acordava de madrugada para ajudar a corear boi.”

Preocupados com o futuro e o estudo dos filhos, o casal decidiu mudar-se para Novo Hamburgo. “Eu já tinha 8 anos. Fui estudar na escola Salgado Filho. O pai abriu uma venda, que era como se chamavam os armazéns. Vendia de tudo, desde secos e molhados até querosene. Colocou o nome Para Pedro, porque queria valorizar o sobrenome da família.”

Chico ajudava no negócio e vendia picolés na rua para faturar um extra. “Como a família era do interior, tínhamos o hábito de ter horta em casa, plantar… E naquela época cultivávamo temperos. Pegava meu cavalo e saia a vender pelo bairro. Quando criança sempre tive cavalo. Atrás da nossa casa era campo aberto até a Viação Hamburguesa e tinha uma carreira reta. Competir nessa cancha era algo que eu gostava muito.”

As dificuldades eram imensas, relembra o empresário, que atravessava a área do parcão a pé para estudar no Colégio Pasqualini, usando apenas chinelos de dedo, tanto no verão como sob as rigorosas temperaturas do inverno. “Para poder ir numa excursão do colégio, fazia brigadeiros para vender entre os colegas mais abastados.”

A história do Chico me despertou duas reflexões, que confesso são recorrentes aqui: o trabalho não tira pedaços de ninguém, muito pelo contrário. O segundo pensamento remete ao seguinte: muitos desejam a posição ou os bens que outros têm, mas não estão dispostos a fazer ou passar pelo que os outros passaram. Quase todas as histórias que compartilhei aqui têm essa característica como pano de fundo. Dificuldade, lutas, trabalho e persistência para obter a vitória pessoal.

“Com 13 anos eu já trabalhava no almoxarifado de uma fábrica de calçados. Uma professora do Pasqualini, percebendo as dificuldades, indicou a mim e mais 5 alunos para uma vaga de estagiário no Banco do Brasil. Fui o escolhido por ter  o diploma do Curso de Datilografia, coisa que atualmente os jovens nem sabem o que é. Trabalhei no banco dos 14 anos até os 18, quando saí para servir o exército. O Pasqualini e o Banco do Brasil me formaram como cidadão.”

A decisão pela faculdade de direito foi tomada naquele período, e influenciada por um bancário do BB, que estava licenciado para  se dedicar à politica e voltou ao banco para dar uma palestra num evento da instituição. Chamava-se Américo Copetti, nome que ficou muito conhecido por aqui. “Além de advogado, era um excelente orador. Me encantou. E decidi naquele momento que seria advogado. Veja como as pessoas podem influenciar a vida de outras.”

Todavia, quis o destino alterar sua rota. Chico foi trabalhar na Artecola porque morava em Canudos e a proximidade do trabalho facilitaria muito para ir à faculdade. Após 13 anos como funcionário, decidiu montar uma empresa de especialidades químicas. “Tornei-me um distribuidor de produtos químicos, coisa que não existia em Novo Hamburgo. No mercado, percebi que havia um nicho de negócio, pois as matérias-primas não estavam aqui, e a maioria das indústrias locais desconheciam matérias-primas sobre as quais eu já tinha know-how.”

“Foi muito difícil. Sempre digo que a Peter Chemical começou com um telefone, um fax e um sonho na garagem de casa. Precisei ter muita resiliência, mas hoje a Peter Chemical tem 28 anos de existência. Em 2012 deixamos de ser distribuidora e passamos a operar somente como indústria. Vendemos para indústrias de transformação de todo o Brasil, a partir do Vila Rosa, um bairro maravilhoso da cidade, que está em franca expansão.

Sobre Jorge Trenz: https://novohamburgo.org/site/queromais/opiniao/2021/02/19/jorge-trenz-na-coluna-opiniao/

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