› Abrigo para mães desamparadas
07/05/2007 às 19:24

Abrigo para mães desamparadas

Um lar diferente, dedicado especialmente às mamães. O Cecrife acolhe gestantes e tenta lhes proporcionar momentos felizes e prepara-las para a chegada de filho

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A notícia da chegada de um bebê vem acompanhada por diversas emoções como ansiedade, alegria, dúvidas que se misturam com uma enorme felicidade. É vida nova, alguém que vai trazer mais alegria para família.


Mas, em alguns casos, a história não é assim tão bonita. Os sentimentos não são felizes e as futuras mamães não contam com o aconchego e carinho de uma família. Na tentativa de amenizar os problemas de grávidas em situação de abandono e vulnerabilidade social que o CECRIFE trabalha desde 1980 em Novo Hamburgo.


O encontro de um lar

No Centro Cristão Feminino já passaram mais de três mil mulheres em seus 27 anos de trabalho, que foram acolhidas gratuitamente, vindas de diversos lugares. Ali, puderam ter seus filhos em um ambiente calmo e recebendo toda a assistência.


Chegam ao Centro grávidas, em qualquer mês de gestação, encaminhadas pelo Conselho Tutelar, Secretaria de Assistência Social, Fórum da Infância e Juventude, Programa Sentinela ou pelos próprios pais, família, amigos ou responsáveis, mesmo quando são maiores de idade.


A maioria das mulheres que procuram o Cecrife é de adolescentes. Em média, entre 14 e 16 anos. Segundo a coordenadora do Centro, Kátia Patrícia Berner, já receberam uma menina de apenas 12 anos.


O Centro é uma das frentes de trabalho da Associação Evangélica de Ação Social (AEVAS), entidade vinculada a Comunidade Evangélica de Confissão Luterana da Ascensão em Novo Hamburgo. Para manter a casa, contam com o apoio de doações e alguma verba da Prefeitura.


A capacidade da casa é de 18 mamães e, pelas regras da casa, elas podem ficar até o bebê ter dois meses de idade. Mas quando chega esse prazo, nem sempre a situação da mãe e bebê já está definida e ela pode deixar o Centro.


Em 2006, em parceria com a Prefeitura, o Projeto Berçário estava em funcionamento. Nele, o bebê podia ficar até completar um ano, enquanto isso a mãe era preparada para o mercado de trabalho e saía do Cecrife com emprego garantindo. “Só que a verba para o Projeto foi liberada só no meio do ano e no final do ano não tinha mais. Então ficou difícil de manter”, diz a coordenadora.


O acolhimento das mães

A missão do Cecrife é proporcionar a essas meninas e mulheres, futuras mamães, um ambiente calmo e acolhedor, onde elas possam ter esse momento pra elas. Muitas vêm de situação de violência e famílias desestruturadas e encontram um lugar onde são tratadas com amor e respeito.


Elas recebem alimentação apropriada, exames pré-natal, roupas e calçados, enxoval pro bebê, acompanhamento psicológico, social e espiritual, planejamento familiar e participam de oficinas.


Durante o período letivo, vários trabalhos são realizados com o apoio de voluntários. Oficinas de corte e costura, informática, padaria, trabalhos manuais, entre outros, desejam melhorar as chances das mães para ingressarem no mercado de trabalho.


Voluntários da Feevale fazem trabalhos de nutrição, questões de enfermagem, palestras. O Colégio Santa Catarina também apóia o Centro, abordando a questão de como cuidar do bebê, entre outros assuntos referentes ao período de gestação e cuidados.


As moradoras da casa têm uma rotina cheia de regras. Até mesmo por não terem tido uma família ou terem vivência de rua elas precisam dessas “normas” para manterem a ordem no Centro e receberem essa noção de responsabilidade.


“Nós sempre dissemos que a casa é delas, por isso devem cuidá-la com carinho. E muitas vezes chegam aqui e não sabem nem passar um pano no chão, então isso também é um aprendizado pra elas, pra cuidar daquilo que é delas”, diz a coordenadora. Por isso, elas têm o dever de ajudar na limpeza da casa e cada uma cuida de suas próprias roupas.


Kátia Patrícia afirma que as mães que passam pelo Cecrife saem de lá diferentes. Ela conta que o Centro trabalha muito a auto-estima, relação mãe e filho, cuidados com a criança, responsabilidade e isso sempre surte algum efeito. Mas, ela frisa, não se pode esquecer que na maioria das vezes são adolescentes que ainda têm muito que aprender para si e já estão assumindo a grande responsabilidade que é ser mãe.


“Essa menina de 12 anos, por exemplo, cortou a adolescência, então nem ela teve a oportunidade de viver certas coisas e já tem um filho. Ela podia estar brincando de boneca, mas a boneca dela agora vai ser filho dela” lamenta.


A menina não ficou no Centro, engravidou e passou maus momentos, mas sua situação foi privilegiada em relação à história de outras tantas. O pai da criança é um rapaz de 20 anos que tem outra namorada. Quando engravidou foi tirar satisfações com a namorada dele e passou a correr risco. Foi encaminhada para o Cecrife em medida de abrigamento. Mas essa adolescente recebeu o apoio da família e por isso não precisou ficar.


Depoimentos

Conversamos com algumas mães do Cecrife e elas nos contaram um pouquinho da sua história e suas expectativas de futuro. Os nomes foram trocados para preservar a identidade destas jovens.


Débora - 16 anos (mãe de um bebê de 8 meses)

“Eu estou aqui vai fazer um ano. Meu bebê está com 8 meses. Minha família não gostava de mim, eu e minha irmã acabamos nos desentendendo e acabei vindo parar aqui. Na briga, eu fiquei toda machucada e a assistente social do posto me trouxe pra cá. Agora eu pretendo conseguir um serviço, arrumar uma creche para minha filha, poder trabalhar e dar tudo que ela precisa. Eu quero voltar a estudar também. Quero ter minha filha sempre perto de mim. Eu não fiz um filho pra dar pros outros”.


Bianca - 22 anos (grávida de um casal de gêmeos)

“Cheguei em fevereiro na casa. Eu vim através do hospital, poiso pai das crianças queria ‘matar’ elas. Ele não quis as crianças e não teve jeito, eu não tive escolha, eu não sou daqui. E ainda são dois, um casal, então eu preferi vir pra cá. Eu pretendo ficar com eles, se for preciso dar a minha vida para o bem deles, eu faço, porque para o pai deles eu não vou entregar. Minha família não é daqui, ninguém sabe dela, mas eu estou bem assim, é melhor assim. Eu tenho a expectativa de terminar meus estudos, cursei só até a terceira série do primeiro ano, e desejo conseguir um serviço bom que dê pra criar meus filhos bem”.


Cris - 17 anos (mãe de um bebê de 08 meses)

“Eu era de um Lar, aí eu engravidei e vim pra cá, já vai fazer um ano. Onde eu estava eu não podia ficar grávida, nesse Lar já fazia uns 10 anos que eu morava lá. Agora eu pretendo cuidar bem do meu filho, depois voltar a estudar e trabalhar. Minha mãe eu não sei onde está e meu pai eu não conheço, então não tenho família. O pai do bebê mora em Campo Bom, trabalha, estuda e mora com os pais. Ele vai assumir o bebê. Nós não estamos namorando, mas somos amigos. Em alguns finais de semana eu e o bebê ficamos na casa dele”.

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