Ninguém pode ser culpado por nascer em berço esplêndido. Pode, sim, ser considerado uma anta-parasita se não aproveitar suas condições vantajosas para fazer algo de produtivo na vida.
O nascimento em uma família com solidez financeira pode facilmente levar o indivíduo a ser uma espécie de sanguessuga grudada na carteira do papai. No caso do anta-parasita macho me parece que a situação se agrava. Não que as meninas nascidas em famílias abastadas não possam vir a esbanjar inconseqüentemente, mas tenho a nítida impressão de que os meninos desta espécie sentem uma necessidade especial em apresentarem-se como babacas perfeitos. A facilidade em se ter o que se quer e a falta de necessidade e de motivação para se conquistar algo na vida, além de músculos e de “Marias-Carteiras”, leva estes rapazes ao parasitismo. Estes indivíduos acabam adotando atividades inúteis e contraproducentes, como: DJ, surfista, isqueitista… Sabe-se que é possível ganhar dinheiro, construir carreira e prosperar nestas pseudo-profissões. Entretanto, segundo estatísticas a serem confirmadas pelo Instituto Datafodase, nove em cada dez antas-parasitas que desenvolvem atividades como as citadas acima não prosperam porra nenhuma; apenas brincam às expensas de seus dedicados e trabalhadores progenitores. Logicamente, existem os filhos de pais ricos que não se enquadram nesta descrição. Como abri este texto, ninguém pode ser culpado simplesmente por ter nascido em berço esplêndido – mas tratarei especificamente disto em uma próxima oportunidade.
Toda esta patacoada ocorreu-me ao ler a Caras. Tomando café no bar da universidade dei de mão em um exemplar desta revista (há publicação melhor para estar em um bar de universidade?) e li a seguinte manchete: “ISABELI FONTANA MÃE – com Lucas, celebra amor e sucesso”. Primeiro: quem é Isabeli Fontana? Enfim, fotos de Isabeli (modelo, evidente) e de seu filho, Lucas, em uma praia ocupavam três quartos da página. O resto era de texto, no qual li este trecho incrivelmente intrigante:
“O trabalho e a maternidade não são as únicas alegrias da modelo. Namorando há cerca de dez meses o jogador de pólo Rico Mansur (33) […]”.
Como assim JOGADOR DE PÓLO?!?! E, além do mais, quem, em que parte do Brasil, ganha a vida jogando pólo? Na história, pólo era um jogo de nobres, reis, imperadores; ainda hoje é restrito, há de se ter possibilidades para manter os cavalos e estruturas para o jogo. Normalmente é jogado em hípicas, clubes fechados a sócios com condições ($$$$) de jogo. Algo estava errado na “notícia” irrelevante da Caras. A Isabeli, essa, é modelo, deve namorar um “jogador de futebol”, isso sim – a Caras cometeu apenas um errinho de digitação, de certo.
Sei de um Mansur, empresário, que foi do êxito total à bancarrota com a Mesbla e taltaltal… Mas este certamente tem mais de 33 anos. Resolvi conferir. Arranquei a página da revista para, em casa, recorrer ao Google. No caminho fui imaginando a nova mania nacional: o pólo. Seria a nova promessa de vida melhor a nossos brasileirinhos. Sim, pois, podemos considerar que, ademais de jogar pólo, Rico Mansur tem dinheiro e/ou fama – caso contrário, não namoraria a top Isabeli Fontana. Afirmo isto, pois, o histórico da moça é respeitável – como afirma a própria Caras: “Entre um trabalho e outro no exterior e no Brasil, não deixa de dar atenção aos filhos, Zion (5), da união com o modelo Álvaro Jacomossi (28), e Lucas (1), da relação com o ator Henri Castelli (30)”. Enfim, Isbeli gosta de homens ricos, famosos e pagadores de pensões alimentícias.
Chegando em casa, ao Google:
“Ricardo Mansur Filho (Ricardinho), (São Paulo, 1975) é um socialite e jogador de pólo brasileiro. Filho de Ricardo Mansur, ex-proprietário das redes de lojas Mappin e da Mesbla, ficou conhecido após namorar mulheres famosas como Luana Piovani, Letícia Birkheuer, Gisele Bündchen e Isabeli Fontana”. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Ricardo_Mansur_Filho).
Ah bom! Rico Mansur aproveita a pequena fortuna que o pai deve ter salvo para jogar pólo – e, certamente, deve se meter, se já não se meteu, a empresário, comprando alguma boate ou algo do tipo. Ademais, é apenas mais uma anta-parasita e, para não dizer que não faz nada, diz que é jogador de pólo. É como se, digamos, eu ficasse desempregado e, a fim de não assumir que não faço nada, dissesse por aí que sou jogador de Winning Eleven. A diferença é que, neste caso, faltam alguns zeros à direita na conta bancária da minha família. Portanto, eu posso, no máximo, ser uma anta; parasita não.
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Dentre os incontáveis índices sobre acesso à Internet que pipocam seguidamente nos noticiários do Brasil e do mundo, há um que não consta em nenhuma amostragem noticiada. Todavia, desconfio que exista tal levantamento – a julgar pelos resultados de algumas pesquisas que se realizam via web. Este suposto índice diz respeito à quantidade de idiotas com acesso à Internet em um determinado local. Se tal levantamento existe, o Brasil está entre seus líderes.
Este é um país com um número gigantesco de idiotas com acesso à rede mundial de computadores. Se não, vejamos.
Com estas três variáveis (Brasil, Internet e idiotas), aos fatos.
1 - O Brasil é um dos países mais povoados. Sua população beira as duas centenas de milhões: o número de habitantes sobre este solo é de, aproximadamente, 180 milhões (fonte: http://www.ibge.gov.br/brasil_em_sintese/default.htm).
2 - Destes, mais de 40 milhões, ou 22,22%, têm acesso à Internet de alguma maneira. Ainda, o brasileiro é o internauta residencial que mais “navega” na rede, à frente do internauta americano, dos europeus e asiáticos. Fonte: http://www.ibope.com.br/calandraWeb/servlet/CalandraRedirect?temp=6&proj=PortalIBOPE&pub=T&db=caldb&comp=pesquisa_leitura&nivel=null&docid=F0BA65FF8A513A48832574750050527E.
3 – O Brasil é um país de idiotas. Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u450083.shtml. Além disso, como outro fator que pode apontar a estupidez generalizada pelo senso-comum nacional, temos nosso rol de “heróis” de inteligência e carisma composto por gente como Pedro Bial (pseudo-intelectual-asqueroso que usa o filtro solar), Jô Soares (gênio na arte de entrevistar a si próprio, através de supostos e constrangidos entrevistados), Grazi Massafera (profissão: Gostosa), Alemão do BBB e Mulher Melancia (auto-explicativos).
Conclusão lógica: com uma população tão grande, com tanto acesso à Internet e com tantos idiotas, o Brasil é, pois, um país com um número gigantesco de idiotas com acesso à web.
A maior prova disto está aqui: http://pt.wikipedia.org/wiki/Novas_sete_maravilhas_do_mundo. A partir de uma revisão informal da lista das Sete Maravilhas do Mundo, qualquer pessoa com acesso à Internet, em qualquer parte do planeta, pôde votar gratuitamente nas novas Sete Maravilhas. Com isto, este país, possuidor de uma volumosa massa de néscios abrindo páginas da Internet todos os dias, conseguiu eleger o Cristo Redentor, uma estatueta, se comparada a colossos como a Grande Muralha. Larguemos a retórica nervosa e analisemos fatos irrefutáveis. Vejamos, agora, a nova lista:

Grande Muralha, China: imponente obra de arquitetura militar e milenar. Trata-se de diversas estruturas construídas por diferentes dinastias, durante dois milênios. Antes, era uma fortaleza que defendia o território. Hoje, uma das obras históricas mais visitadas em todo planeta.

Ruínas de Petra, Jordânia: conjunto de prédios e monumentos escavados em rochas (!!!), datado de mais de três séculos antes de Cristo. De estilo Helenístico, as estruturas construídas nas montanhas rochosas indicam o grande domínio que seus construtores tinham das técnicas hidráulicas. A cidade possui um enorme sistema de túneis e câmaras d’água. Há, inclusive, um teatro com capacidade para mais de 4000 pessoas, lapidado no interior da cidade.

Machu Pichu, Peru: a “cidade perdida dos incas”, símbolo do pujante Império Inca e construído no século XV. A cidade pré-colombiana, situada a mais de 2400 metros de altitude, e sua organização e engenhosidade demonstram a capacidade de um dos povos mais intrigantes da história.

Chichén Itzá, México: do século III, era a principal cidade-templo Maia. Centro político e econômico dos Maia, suas construções e estruturas (como a pirâmide de Kukulkán) são provas da imensa capacidade arquitetônica desta antiga civilização.

Coliseu, Itália: colossal símbolo do Império Romano. Com capacidade para aproximadamente 50.000 pessoas e com 48 metros de altura, foi utilizado para diversos tipos de espetáculos - por quase cinco séculos.

Taj Mahal, Índia: suntuosa e esplêndida obra de quase quatro séculos de idade. Erguido por cerca de 22 mil homens, o maior monumento da Índia foi construído pelo imperador Shah Jahan, em memória de sua esposa favorita, Aryumand.

Cristo Redentor, Brasil. Uma bela obra, pouco mais que isto. Uma justa homenagem ao cristianismo no Brasil, nada mais que isto. 38 metros, construída a partir de 1926 e inaugurada em 1931, com o precioso cimento armado e revestida da gloriosa pedra-sabão.
Como que esse Cristo Redentor conseguiu se posicionar ao lado de obras como as referidas acima? Refiro-me a obras de aspectos impressionantes, com suas belezas, arquiteturas e engenhosidades incontestáveis, com histórias vastas e seculares. Comparado às outras seis integrantes da lista das 7 Maravilhas, o que é o Cristo Redentor?
Pior que isso: comparada às outras tantas obras que concorriam na votação e, graças ao voto inconseqüente (normal) dos brasileiros, que foram alijadas da menção, o que é o Cristo Redentor? Não é resultado de um contexto, de um fato, de um período histórico específico e relevante – se o fosse, o que dizer das Pirâmides do Egito? Não foi palco de grandes eventos históricos, capazes de definir o rumo de nações inteiras, ou mesmo de pequenas etnias – se o fosse, o que dizer do Kremlim? Não é uma sumidade em exuberância e beleza – se o fosse, o que dizer da Basílica de Santa Sofia? Nem imponente essa obreta é: seus 38 metrinhos, sendo 8 só de base, passam vergonha perto de uma Torre Eifel.
O Cristo Redentor não é NADA, absolutamente NADA do que as outras seis Maravilhas do Mundo atual são. Aliás, não é páreo nem para as obras que ficaram de fora da lista. Veja mais imagens das eleitas e das não eleitas aqui: http://pt.wikipedia.org/wiki/Novas_sete_maravilhas_do_mundo.
Considerando toda a importância e carga histórica, toda a imponência arquitetônica, toda engenhosidade das obras, todas estas características das outras 6 Maravilhas do Mundo e, inclusive, dos monumentos que ficaram de fora deste Top 7, como, lhes pergunto, COMO O CRISTO REDENTOR SE TORNOU UMA DAS SETE MARAVILHAS DO MUNDO? Simples: porque é situado em um país com um número gigantesco de idiotas com acesso à Internet.
A eleição das novas Sete Maravilhas do Mundo foi feita pela rede mundial de computadores. Qualquer um poderia votar. Assim, com tanta gente estúpida com acesso à web, o Brasil, tranquilamente, alçou o Cristo Redentor ao posto de uma Maravilha do Mundo Moderno.
Recorra um pouco à memória e lembre-se das campanhas veiculadas, nos diversos meios de comunicação do Brasil, para que as pessoas votassem no Cristo Redentor. Neste país, vivemos sob o império do senso-comum, do achismo, da opinião generalizada. Qualquer coisa que seja dita ou propagandiada com bela estética e certeiro discurso convence à nossa maioria de habitantes idiotas. De preferência que seja em um bem produzido comercial de TV (http://www.youtube.com/watch?v=PuKvQ-_LEtE&feature=related), endossado por uma mídia ignóbil e com o apoio de celebridades supostamente inteligentes. Pronto, temos a condição essencial para uma defecção da magnitude da eleição do Cristo como uma Maravilha. A partir das mesmas premissas, no Brasil, incrivelmente, considera-se, por exemplo, o Pedro Bial um gênio por falar obviedades irritantes em seu “Filtro Solar” (http://www.youtube.com/watch?v=vOkZCop9CUE). Tais “genialidades”, convenhamos, até a Sabrina Sato seria capaz de proferir.
Elegendo, via Internet, o Cristo Redentor uma das Sete Maravilhas do Mundo, provamos cabalmente que somos um povo medíocre, sem uma gota alvissareira de autocrítica. Meus conterrâneos que tiveram o senso de votar no Cristo Redentor o fizeram essencialmente por motivação patriotas, imbebidos em um sugerido orgulho nacional. Através de campanhas midiáticas que apelaram ao patriotismo, correntes de e-mails do tipo “vote no Cristo e repasse para 567 pessoas ou você nunca terá sucesso na vida amorosa” e outros meios inconseqüentes, o Brasil colocou uma obra no máximo bonita e interessante em uma lista que é referência há anos. Evidente que as campanhas em favor do Cristo Redentor como uma das Maravilhas do Mundo se focaram no sentimento de orgulho nacional, em uma afirmação de um nacionalismo pouco desenvolvido. O senso-comum, formada pela população média, que se “informa” através de jornais e se “diverte” através de novelas, recebeu a mensagem de que seria positivo um monumento brasileiro entre os mais importantes do mundo - além de ser bom para o orgulho nacional, seria excelente para o turimos do país. Desta forma, o brasileiro entendeu que o Cristo Redentor merecia ser considerado uma das Sete Maravilhas do Mundo e o elegeu sem ver uma imagem sequer dos outros concorrentes. 100% dos brasileiros que votaram no Cristo Redentor (que deve ser 100% dos votos deste) não analisaram nenhum dos outros candidatos. Se o tivessem feito, teriam mudado o voto.
O Cristo Redentor na mesma lista em que consta o Taj Mahal, Machu Pichu e a Muralha da China, não dando lugar à Acrópole, ao Kremlin e às Pirâmides, é mais uma brincadeira de mau-gosto feita neste país tropical. Não que esta lista tenha alguma importância, não. Ainda que a votação tenha ultrapassado a casa dos cem milhões de votos, a UNESCO não a reconhece, devido à sua TOTAL falta de critérios. Então, o importante mesmo, aqui, não é essa listinha. Este compêndio serve apenas como mais uma prova de como somos um país de idiotas. Ao ponto de, sem um mínimo de desconfiança, imaginar que o Cristo Redentor fosse comparável às outras 6 Maravilhas e superior a tantas outras que ficaram da oitava posição para baixo.
Se houvesse uma votação mundial, pela Internet, para eleger as principais obras musicais da história, o Brasil faria com que a Egüinha Pocotó figurasse na mesma lista que a Nona Sinfonia de Bethoven e a Sinfonia No. 31 de Mozart, deixando de lado obras de Bach e de Liszt.
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O Lula assinando o Acordo que dá novas normas à Língua Portuguesa e pretende padronizar seu uso nos países lusófonos é um espetáculo surreal.
Ver o Lula assinando o Acordo Ortográfico é como ver o Alemão do Big Brother explanando acerca do acelerador de partículas; ou a Mulher Melancia divagando a respeito da crise no mercado global.
Mas não sejamos injustos. O Lula e seu Plano de Desenvolvimento da Educação almejam, honestamente, levar educação a todos brasileiros. Quase todos. O Lula, esse quixotesco já sem graça, quer educação para todos, menos para ele.
Ora, pois, vamos aos tristes e desalentadores fatos.
29 de setembro de 1908. O mundo perde um de seus maiores escritores, o Brasil perde seu maior gênio: Joaquim Maria MACHADO DE ASSIS.
29 de setembro de 2008. Para comemorar a morte de um dos indivíduos que melhor usou a língua portuguesa assassina-se oficialmente a própria língua portuguesa. Certo que ainda é um Acordo, não uma lei irrevogável. Mas suas pretensões assustam. Mais assustador que estas, somente a adesão de várias cabeças “pensantes” (?) à tal idéia.
Acordo Ortográfico foi oficialmente aceito pelo Brasil. Oficialmente sim, mas, oremos, não de fato. Alguns especialistas (professor Cláudio Moreno, entre eles) prognosticam que este Acordo Ortográfico tem tudo para não vingar – como não vingou o de 1945. Ocorre que em 1943 o Brasil assinou um acordo deste tipo, mas Portugal reclamou que tal contrato não atendia várias de suas demandas. Assinou-se, então, o acordo de 1945 – que não foi respeitado no Brasil, onde vigoram, ainda hoje, as premissas do acordo de 1943 (com algumas alterações datadas de 1971).
“Ooooooh, falamos sob a vigência de regras da primeira metade do século XX, que horror!!!”. Caros amigos, as regras gramaticais existem, e assim devem ser utilizadas: para nortear, para servir como uma padronização necessária, possibilitando, por exemplo, a comunicação entre um peão de estância do Alegrete e um seringueiro de Roraima. Não trata-se de uma sentença de morte, de uma obrigatoriedade inata ao indivíduo. A regra molda-se ao uso, não pode ser o contrário – como está acontecendo com o Acordo. Com ele, põe-se em curso um estupro lingüístico, forçando os falantes a uma adaptação desnecessária e anti-natural (ou antinatural?). Ou seja, traçará o caminho inverso ao da lógica: ao invés de o uso determinar a regra, a regra determinará o uso.
A utilização escrita e falada do Português mortifica-se aos poucos, comprometendo a preservação de nossas identidades culturais lusitanas e brasileiras. Não que estas se perderão na poeira do tempo, mas contatá-las tem sido tarefa cada vez mais árdua. O Acordo Ortográfico ignora as raízes culturais responsáveis pela formação das variáveis lingüísticas presentes em cada país que o acata, uma vez que padroniza regras que, até agora, eram particulares a uns e ignoradas por outros. A “herva” de Portugal passará a ser “erva”, como cá, por exemplo. Não é o fim dos tempos, mas não creio que seja salutar passar por cima de séculos de formações etimológicas que, entre outras coisas, apontam o quanto determinado grupo de falantes mantém ou modifica suas raízes lingüísticas.
O que fazer para que a população escreva melhor? Podemos ponderar sobre várias alternativas a esta pergunta. Todavia, é de um simplismo preocupante a alternativa encontrada pelo Acordo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que é basicamente transformar os erros correntes em acertos forçados – vide o caso do trema, dos acentos diferenciais e do hífen. A idéia básica é eliminar as supostas dificuldades em nome de, ao que me parece, uma socialização da língua. Entretanto, não é necessário muito estudo para perceber que a simples inversão de certas regras nada mais faz que estimular a preguiça do falante que ora reproduz seu pensamento em escrita. Se era difícil lembrarmos se da necessidade de acento circunflexo na terceira pessoa do plural de verbos como “crer/crêem” e “ler/lêem”, anula-se então tal obrigação e escreve-se “creem” e “leem”. Duplo “o” tem acento? É “vôo” e “enjôo”? Bem, na dúvida, com tantas dúvidas, seguiu-se o caminho das facilitações indiscriminadas. E por aí vai. E por aí vai nossa riqueza gramatical e ortográfica.
Outra conseqüência, que parece até piada de português: se até agora tínhamos duas comunidades lingüísticas (Brasil e Portugal) que se entendiam muito bem, obrigado, apesar das diferenças em seus próprios Acordos Ortográficos, agora teremos um terceiro Acordo, cuja função principal é confundir (ainda que tentando simplificar) o que já estava claro.
A unificação proposta é rala, altera de forma equivocada questões importantes na utilização da língua. Se a discussão fosse por outro caminho, de se estabelecer normas que respeitassem a língua e seus falantes, não creio que seria má idéia uma unificação. Se em Portugal se escrevia “facto” e “acto”, agora escrever-se-á como aqui no Brasil: “fato” e “ato”. Ora, não são essas diferenças que podem prejudicar o entendimento por parte dos brasileiros de um texto escrito por um português. Diz o Presidente Lula que o Acordo será excelente para o mercado editorial, pois um livro editado em Portugal poderá ser tranqüilamente vendido no Brasil, por padronizar pontos como os acima citados. Bom, fica mais do que claro que o Lula, definitivamente, não lê! Não creio que nós temos dificuldades de entender o que quer dizer o vocábulo “acto” em uma obra de José Saramago, por exemplo. Da mesma maneira, nossos patrícios entendem limpidamente a utilização de “ato” em uma obra de Machado de Assis. As diferenças que podem impor dificuldade nas interpretações são de ordem vocabular. Palavras que para nós têm um significado, em Portugal tomam conotações distintas, e vice-versa: aqui “aposentado”, lá “reformado”; aqui “blusão”, lá “camisola”; aqui “calcinha”, lá “cueca”; aqui “pedestre”, lá “peão”. Estas diferenças permanecerão, com ou sem Acordo – até porque elas só fazem enriquecer o conhecimento de quem se depara com as mesmas.
Esse crime hediondo que se comete contra a cultura de cada uma das nações que tem o Português como idioma oficial é uma inversão completa dos valores lingüísticos. A pretensão é determinar a utilização da língua a partir de normatizações estipuladas verticalmente, em um ataque às propriedades e características próprias do uso da língua por parte de cada país da Lusofonia. Os pretextos para essa inconseqüente orgia cultural, pueril e populista, baseada em premissas pedagógicas e sociais deveras duvidosas, são os seguintes: simplificar e uniformizar as características lingüísticas do Português a fim de torná-lo mais acessível, compreensível às massas, combatendo, assim, o analfabetismo (não dará certo, a história mostra); e estreitar os laços culturais entre os povos (quem disse isso? Carla Perez?). E mais: SÃO LUÍS VAZ DE CAMÕES ME ACUDA!, ninguém vê que essa insanidade toda, no Brasil, está sendo homologada por um semi-analfabeto!
Não, não é retórica elitista defenestrando um representante das classes populares que chegou ao poder legitimamente. Não sou da elite, boa parte de meus colegas, professores e amigos também não o são. E, pasmem!, sabemos utilizar a língua portuguesa de forma a não necessitar de uma padronização forçada para bem expressarmo-nos. A senhora minha mãe optou por cuidar dos filhos e da casa por duas décadas. Feito isso, e beirando os cinqüenta anos, voltou aos bancos escolares, concluiu o ensino médio e formou-se em um curso técnico. O que, então, impediu um político profissional, sem mandato (e sem trabalhar) de 1989 a 2002, de, ao menos, concluir sua alfabetização!?!??!?!?!?!?!?!?!? Oquei, ele nasceu em um pobre recôndito, blábláblá… Mas ele foi deputado federal, se sustentou, sabe-se lá como, sem trabalhar, por treze anos e não arranjou tempo (e motivação) alguma para estudar. Estudando e trabalhando, como imensa parcela da nossa sociedade, sinto-me apto a criticar um néscio preguiçoso que assina um documento da importância de um Acordo Ortográfico entre países que, MUITO possivelmente, ele mesmo não é capaz de interpretar – mas que rege questões de primeira importância no meu trabalho, nos meus estudos e na vida de todos que utilizam a Língua Portuguesa de alguma maneira. Não é possível que aceitemos uma besta autorizando uma besteira que ela mesma não compreende.
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Quando eu tinha três anos de idade já chutava a bola de futebol com mais precisão que meu irmão mais velho. Sempre mostrei muito talento para o futebol, muito mesmo. Aos oito anos, depois de um joguinho na aula de Educação Física da segunda série, meu professor chamou meu pai na escola e o aconselhou que me colocasse o quanto antes numa escolhinha de futebol – porque eu tinha muito talento, muito mesmo. Eu adorava futebol, jogava o dia todo. Acordava cedo e já ia bater bola com a gurizada na rua. À tarde, na escola; ao entardecer, na rua de novo. Quando estava dentro de casa, jogava no videogame. Papai concordou com o professor, mas mamãe não gostava da idéia. Não queria que minha vida se resumisse ao futebol, como estava acontecendo. E achava que, com o meu grande talento, eu acabaria sendo um grande jogador e ganhando muito dinheiro fácil, o que faria com que eu não aprendesse a dar valor às conquistas. Então, mamãe pediu a papai que contratasse uma professora particular de piano clássico. E papai contratou Dona Iolanda. Ela tinha um cheiro… Não sei dizer bem, mas era um cheiro de casa antiga. Nem precisava olhar para ela, mas, ao piano, ao lado daquela senhora enrugada, eu tinha a sensação de estar em uma casa muito velha, em uma cozinha com chão de tabuão opaco e paredes forradas com motivos florais e em tons amarelados; com um fogão à lenha no canto e uma chaleira fumegando sobre ele. Dona Iolanda ia três vezes por semana à minha casa e dava lições durante duas horas cada vez. Nos outros dois dias da semana eu ia num curso de Inglês, era importante para o meu futuro. Nas horas “vagas” eu repassava as lições de piano e de inglês. Eu não queria nem tocar piano nem falar Inglês. Dona Iolanda não era má pessoa, mas aquele cheiro de mausoléu me ansiava. E Inglês, poxa, que língua chata! Hoje eu penso que se fossem aulas de Espanhol ou Italiano eu teria aproveitado muito mais. Enfim, mamãe achou por bem aulas de piano e de Inglês, assim eu tirava a bola da cabeça. Eu, bem, eu só queria jogar futebol, mas acabei aceitando – não queria desapontar mamãe.
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Acabei indo até o fim do curso de Inglês. Fui muito bem por sinal, mas nunca utilizei o inglês para nada. Só no meu currículo; mas deste também nunca fiz grandes usos, como se verá a seguir. Levei a sério também os estudos ao piano. Tornei-me excelente músico, pesquisei profundamente as histórias e teorias desta bela arte. Tocava com muita destreza e beleza. Aos dezoito anos, recém saído do ensino médio, falei em casa de minha vontade de entrar em uma faculdade de música. Falei com entusiasmo, pois foi uma idéia de mamãe que acabou dando certo, ela ficaria orgulhosa.
- Mas, meu filho, o seu pai o inscreveu neste concurso público, para o Tribunal de Contas da União. Já pensou, você contador a trabalhar para o Governo Federal?!?! É muito inteligente, passa no concurso com certeza! Já garante sua aposentadoria tão jovem, estará seguro para o resto da vida.
- Mas e o vestibular? Preciso fazer um vestibular!
- Faça no meio do ano. Agora, ocupe-se em passar neste concurso e garantir seu futuro – disse meu pai. – E tire isto de músico da cabeça. Músico não é profissão, é passatempo ou coisa de vagabundo! Agora… Um cargo no Governo Federal… Aaah, isso sim, meu filho, isso sim é posto!
Eu já tinha meu futuro garantido, a música. Eu era excelente músico. Não estava preocupado em “garantir” meu futuro, minha aposentadoria. Se estudasse com afinco, em uma boa universidade, logo estaria em uma orquestra, ou gravando com grandes músicos. Chico Buarque, João Gilberto, Latino… Mas não, teria que fazer este concurso. Teria mesmo? Eu que decidia sobre meu futuro! Mas também não queria afrontar meus pais. Estudei piano clássico por dez anos. Abandonei o futebol por isso. E agora não valia para mais nada?! Nunca pensei em ser contador do Governo Federal. Nem de ninguém. Mas papai queria que eu garantisse meu futuro, tivesse uma carreira, e isto começava por passar no concurso público. Eu, bem, só queria ser músico, mas acabei aceitando – não queria desapontar papai.
***
Eu era estudioso e inteligente. Passei no concurso público com certa facilidade e tornei-me Auditor Técnico do Tribunal de Contas da União. Já é um crachá. E aos dezoito anos! Era um orgulho e tanto para meus pais. Para mim nem tanto, mas tudo bem, eu aceitava. Chegando à metade daquele ano, chegava o período do vestibular. Já sabia o que queria. Música não seria mais, pois pede demasiada dedicação. Meu cargo público não deixaria tempo para isto e a motivação não existia mais, uma vez que não poderia levar a carreira de músico adiante. Mas, estudando música, aprendi muito da história dela e de seus contextos. Acabei por descobrir uma nova paixão. Era um autodidata em História.
- Bom, como vocês queriam, garanti meu futuro. Sou um funcionário público Federal…
- Graças ao papai, né, filhão? – entusiasmou-se meu pai.
- Sim, papai, sim – respondi enfadado. – Agora, não preciso me preocupar em estudar para ter uma profissão. Faço carreira no Governo e estou tranqüilo. Portanto, estudarei na Faculdade algo de meu gosto. Estudarei História! – sentenciei com garbo e alegria.
- Como!? – surpreendeu-se, anojadamente, minha mãe.
- Olha – intrometeu-se meu irmão mais velho –, não seria mais prudente que fizesse Contabilidade ou outro curso afim com o seu trabalho? Assim garante uma ascensão mais rápida na carreira pública.
- Rápido ou não, terei diversas “ascensões”. E, além disso, temos gratificações a todo momento, por qualquer coisa. Qualquer hora destas estarão gratificando àqueles que menos cochilarem na repartição.
- Ora meu filho – interrompeu meu pai, preocupado –, não faça descaso do seu trabalho. Seu irmão tem razão. Com um curso que tenha a ver com sua função no Tribunal de Contas da União você fará uma bela carreira. E, além do mais… “História”? – indagou, como se eu tivesse anunciado que faria uma cirurgia para troca de sexo. – Não perca seu tempo estudando isto. Se tiver alguma dúvida sobre algum acontecimento histórico, consulte a enciclopédia ou vai ao google. Faça Contabilidade, será bom para sua carreira.
Eu era apaixonado por História. Enquanto estudava a história da música, aprendia todo o contexto que a envolvia e fui além. Piano e História eram minhas paixões. Nem cogitava estudar Contabilidade. Mas minha família achava que me ajudaria a avançar na carreira pública e eu deveria, então, cursar Contabilidade. Eu, bem, eu queria estudar História, mas acabei aceitando – não queria desapontar minha família.
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Prestei, então, o vestibular para Contabilidade – ou “Ciências Contábeis”, como chamam modernosamente, para não parecer tão ruim. Passei e, no segundo semestre do ano dos meus dezoito, já estava com boa parte da vida encaminhada: Auditor Técnico do Tribunal de Contas da União e acadêmico de Ciências Contábeis. Um pouco diferente do que imaginei, mas não era de todo ruim. Comecei a pensar em adentrar outra área, e nesta, ao menos, eu seria dono de mim: relacionamentos amorosos. Como passei boa parte da minha adolescência me dedicando ao piano e ao Inglês, não tinha uma vida social muito agitada. Uns poucos amigos, uma ou outra namoradinha, nada mais. Mas agora estava na Universidade! Ah, a vida no campus… Um mundo novo se descortinava à minha frente. Estava decidido a fazer valer a pena, ter um pouco de emoção na minha vida. Os dias de trabalho como Auditor Técnico eram tão excitantes quanto as vezes em que tentei conversar com Dona Iolanda. A diferença é que o Tribunal não tinha cheiro de casa antiga – era cheiro de jazigo mesmo. Mas na Universidade seria diferente. Festas, amigos, meninas… E mais: não me amarraria à primeira garota que me encantasse. Deixaria várias me encantarem. Estava disposto a finalmente aproveitar a vida.
Logo no início deste meu primeiro semestre na faculdade eu conheci Flora. Ela era encantadora. Era uma moça comum. Olhos meio escuros, cabelos castanho-médio e meio ondulados, estatura mediana. Mas tinha algo de encantador nela. Despertava-me um fascínio acima da média. Ademais, eram belas suas formas. Claro que não fazia Ciências Contábeis, não creio que seja possível uma mulher encantadora fazer Ciências Contábeis. Conheci Flora em uma festa organizada pelos Diretórios de Estudantes. Também estava no primeiro semestre, só que de Administração. Logo no início da conversa, percebi que tínhamos algo em comum:
- Não sabia o que fazer mesmo, então escolhi Administração. Meus pais queriam que eu viesse para a faculdade de qualquer jeito – confidenciou-me logo no início da conversa.
Senti-me à vontade com as confidências de Flora e também fui logo contando minha história.
- É… Eu até sabia o que fazer, apenas não me permitiram…
Contei a ela a série de desmandos de meus pais. Foi meu erro. Aquela mulher não poderia ter tido ciência de como sou um tanto quanto influenciável. Talvez eu não estivesse aqui hoje…
Começamos a ensaiar um namoro. Mas, como eu já disse, não estava disposto a me entregar ao primeiro encantamento. Nas duas primeiras semanas resisti. Encontrávamos-nos apenas na Universidade, lá ficávamos juntos e só. Eu evitava programas além disso, pois sentia que ela estava querendo algo sério. Mas, em contrapartida, eu estava querendo ir além dos beijos que trocávamos nas noites no campus. A oportunidade surgiu em uma terça-feira. Eu sabia que ela seguidamente ficava sozinha em casa. Era filha única e os pais estavam sempre viajando a trabalho.
- Vai lá em casa hoje à noite ficar comigo… – disse-me em reticências alvissareiras.
Não tinha por que não ir. Ao que sabia, seus pais estavam fora. Ela estaria sozinha, à minha mercê. Seria a noite em que eu finalmente perderia minha virgindade. Como afirmei antes, ela era encantadora, graciosa, de belas formas. Excitei-me com a idéia. Iniciaria muito bem meu primeiro semestre na faculdade. Saí da repartição o mais cedo possível, passei em um mercado no caminho de casa e comprei a garrafa mais cara de vinho que lá encontrei. Já em casa, tomei o banho mais demorado de minha vida. Também pudera, finalmente uma mulher teria com minhas partes. Saí de casa em êxtase. Três preservativos em cada bolso de minha melhor calça, uma belíssima camisa de linho, vinho em uma mão, o endereço de Flora na outra, e, por onde eu passava, deixava um perfume capaz de fazer desmaiar Dona Iolanda – ela e aquele cheiro de mausoléu.
Chegando ao endereço anotado tive uma grande surpresa. Uma enorme agitação, vários carros estacionados à rua, muita gente na casa. Flora, certamente por perceber meu carro, saiu a me encontrar, acompanhada por duas pessoas sorridentes.
- Flora, o que é isso!?!?
- O aniversário de noventa anos do meu avô, ora! Não lhe avisei? Perdão, devo ter esquecido… Papai, mamãe, este é meu namorado: Maurício – apresentou-me assim, efusivamente, Flora.
- Então você é Auditor Técnico do Tribunal de Contas da União e faz Ciências Contábeis… Seus pais devem ter muito orgulho de você! – observou meu, a partir daquele momento, sogro.
- E, veja, que graça, trouxe uma garrafa de um excelente vinho de presente para o vovô! Pena que ele não pode beber mais, mas ficará muito agradecido com o gesto – disse minha “sogra”.
- Venha conhecer o vovô e o resto da família. Todos vão lhe receber muito bem na família – sentenciou Flora. Sim, aquilo era uma sentença.
Entende meu desespero? Em um minuto eu estava me encaminhando para um sexo casual, ainda que fosse a perda da minha virgindade; em outro eu era apresentado à família de minha namorada (outra novidade) e passava a fazer parte daquela família. E seguiu o resto da noite. Fui percebendo que, assim como o pai de Flora, todos já tinham informações sobre mim – Flora fizera um excelente trabalho da minha imagem para aquelas pessoas. Era uma família numerosa: o avô, os pais de Flora, uma meia dúzia de tios, uma dúzia de primos e… Eu! De fato, foram muito acolhedores. Flora olhava-me com um tanto quanto constrangida, era lógico que eu havia percebido a manobra muito bem arquitetada por ela. Eu cheguei a ficar deveras brabo. Todavia, bastava ela me lançar aquele seu sorriso gracioso que eu languescia. E era um sorriso que dizia “eu sei que lhe magoei armando isso, mas vou lhe recompensar…”. Como não languescer? Ademais, todos eram muito agradáveis comigo. Eu já me sentia da família.
Sei que eu só queria era perder a virgindade com aquela menina encantadora. Seria aquela noite e mais algumas até eu querer experimentar outros encantos. Mas Flora era tão graciosa e sua família era tão amigável… Certo que ela gostava muito de mim, pois armara toda aquela situação para me apresentar à sua família como seu namorado. Eu, bem, só queria sexo, nada mais, mas acabei aceitando – não queria desapontar a encantadora Flora.
***
E assim foi por toda a minha vida.
O namoro que começou de forma arranjada encaminhou-se da mesma maneira ao casamento. Nosso noivado foi no Natal daquele mesmo ano, cinco meses após o início do namoro. A festa foi novamente na casa dos pais da Flora. Quando eu cheguei, ela me chamou a seu quarto, mostrou-me as alianças que comprara sem eu saber e me avisou que eu a pediria em casamento naquela noite. “Não sabemos quando vovô partirá desta vida, seu último desejo é ver sua neta mais nova se casar. E falamos em casamento esses dias e você concordou comigo.”. Bom, eu ouvi apenas, não falei nada. Mas, se quem cala consente, eu consenti. E, bem, não queria desapontar o vovô.
Comprei imóveis que não queria comprar. Viajei a lugares que não queria conhecer. Paguei faturas de coisas que não consumi. Comi muita comida que não queria comer. Tivemos dois filhos; até os queria, mas os nomes não eram do meu gosto: Arlindo (o mesmo do vovô) e Carla.
Assim também se arrastaram os anos de meu trabalho modorrento. Eu só queria passar despercebido por ali por três décadas, fazer meu serviço sem problemas e me aposentar. Mas acabei aceitando deliberações que não me convinham, aturando pessoas das quais não gostava, recebendo atribuições que não me interessavam. E sentindo aquele cheiro de jazigo dia após dia. Que saudades sentia do cheiro de casa velha que exalava Dona Iolanda.
Hoje eu poderia ser um grande jogador de futebol, com muito dinheiro e fama internacional. Ou, quem sabe, um renomado regente de alguma importante orquestra, a viajar pelo mundo mostrando meus dons. Compositor, professor de História, de Inglês até. Entretanto, acabei me tornando Auditor Técnico do Tribunal de Contas da União, Bacharel em Ciências Contábeis, esposo da já não mais encantadora (mas ainda manipuladora e controladora) Flora, pai de alguém chamado Arlindo e portador de um tédio do tamanho de meus desapontamentos.
***
Decidi-me então virar este jogo. Tarde, mas não demais. Aos cinqüenta e cinco anos ainda gozo de boa saúde. Criei meus filhos, muito bem até. Fiz o que pude ao menos, mas a mãe deles não lhes deu muitas opções. Estão casados e encaminhados na vida. Não sei se como gostariam; mas, como Flora gostaria, certamente. Talvez seja hereditário. Já não agüento mais Flora. Agora ela é encantadora apenas quando está como agora, bem longe de mim. Receio que ela não me deixasse escolher nem meu asilo, daqui alguns anos. Meus pais já morreram. E morreram como viveram – não pude nem deliberar acerca das questões dos enterros, já haviam deixado tudo decidido. Estou devidamente aposentado. Ou seja, a situação é propícia para que eu faça o que deveria ter feito aos dezoito (ou aos oito, até): tomar uma decisão.
***
Juntei parte das enormes economias que fiz nos anos de trabalho no Tribunal e parti. Junto com o dinheiro, levei um teclado eletrônico portátil, os livros de Histórias e os de estudos musicais, meus discos, algumas roupas e uma coragem reunida durante cinco décadas.
Decidi comprar um barco para, junto com meus pertences, velejar pelo mundo – livre, finalmente. Nunca estive tão eufórico. Não avisei ninguém. Escreveria uma carta em alto-mar e a enviaria de algum porto pelo mundo. Queria um barco de pequeno porte, o qual uma única pessoa inexperiente seria capaz de fazê-lo velejar. Chegando à marina, havia apenas um barco nestas condições. Era bom, até. Mas o amável e atencioso vendedor apresentou-me uma máquina, o último tipo em veleiros para um tripulante: moderno, arrojado, com incontáveis acessórios e deveras confortável. Era, sim senhor, um belíssimo barco. Muito melhor que o outro, o qual uma única pessoa inexperiente poderia velejar.
- Mas… Eu vou saber comandar este barco? – indaguei preocupado.
- Certamente. O senhor me parece uma pessoa muito inteligente e esclarecida. Não terá maiores dificuldades. Além do mais, esta bela peça da navegação se auto-comanda. Ela apenas indica o que o senhor precisa fazer. Venha que lhe mostro tudo.
Realmente, não parecia muito complicado.
Eu queria apenas um barco que acomodasse minhas coisas e pudesse me levar para longe de tudo que me aborrecia – e que eu soubesse comandar. Mas o vendedor fora tão cortês comigo, tão gentil e obsequioso apresentando tão bela embarcação. Eu, bem, apenas queria velejar pelo mundo sem maiores problemas, mas acabei aceitando a sugestão – não queria desapontar o vendedor.
***
Hoje, estou à deriva. Escrevo de algum ponto do Oceano Pacífico. Como era de se prever, não soube operar toda a tecnologia deste veleiro. De alguma maneira, acabei me perdendo na imensidão dos mares. Não me preocupo tanto com isso, pois já havia me perdido, e muito, na minha vida. Todavia, não queria terminar aqui, sozinho e melancólico e vendo meu único plano levado a cabo literalmente naufragando. O suprimento está acabando, não consigo contato por rádio e nenhum outro barco, navio ou jangada passa por mim.
Perdi minha vida, meus sonhos, minhas convicções. Sentado no convés deste barco, apenas esperando para morrer de fome ou em uma tempestade em alto mar, olho para trás e vejo tudo o que abandonei por não querer desapontar aqueles que me cercam. Escrevo, então, esta carta na esperança de que ela seja encontrada algum dia. A colocarei dentro de uma garrafa e jogarei na imensidão do Oceano e desejo que, quem a encontre, receba de mim o maior ensinamento que recebi da vida: nunca, jamais!, saia velejando pelo mundo em um barco moderno sem contar com uma tripulação treinada e capacitada.
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Fazer cocô quando se está muito apertado. Gol do time do coração em final de campeonato. Cerveja gelada com os amigos. Abraço de pai e mãe. O beijo da amada à alvorada. E música.
Não necessariamente nesta ordem, eis as coisas que mais me dão prazer, júbilo, alacridade e regozijo nesta vida de meu Deus. E me agradam os extremos. Gosto e procuro conhecer muita música. Mas as que mais me fazem bem, as que eu mais ouço e me apego, são aquelas que: ou me embebem em uma enorme euforia, me fazem sorrir sozinho, com uma inebriante calmaria e felicidade, e pensar “caracarambacaracaraô”; ou me envolvem em um breu triste, introspectivo, reflexivo e melancólico e despertam meu lado “emo”. Constantemente faço listas com as músicas dos dois grupos. E, lógico, as listadas dependem muito do contexto e do estado de espírito em que me encontro. Pois, se uma das músicas que me causam extrema alegria estiver tocando em um momento em que acontecer algo triste, ela certamente migrará de grupo. San Tropez, do Pink Floyd, é uma das poucas músicas que, a qualquer época, sempre figuram na minha lista das “alegronas”. Se um dia, por exemplo, eu estiver a ouvindo e, sei lá, for atropelado por um ônibus, ela passará do grupo das “caracarambacaracaraô” para o das “emo”.
Enfim. Creio que cheguei a listas que, se não são definitivas, me acompanharão por muito tempo – com um ou outro acréscimo. Não é exatamente uma síntese de minhas preferências, mas se aproxima. É musicalmente híbrida, poliglota e instrumental, virtuosa e minimalista. E, se música é vida, eis uma bela trilha sonora para a minha.
E a primeira destas listas que apresento é a das “Caracarambacaracaraô”. Apresenta-se em ordem completamente aleatória e o único critério utilizado na escolha destas canções é o sentimento de euforia que elas me causam. Compartilho-as pois são músicas que entendo que todos deveriam ao menos conhecer. As exponho com as seguintes informações: nome da música, cantor/banda, álbum, ano, estilo (uma rotuladinha, para nos guiarmos), um breve comentário e link para o vídeo no YouTube. Em breve, a lista “Emo”. Eis.
Tears dry on their own / Amy Winehouse / Back to Black / 2006 / Soul-Jazz
A voz desta jovem mulher trata-se da mais recente aquisição de meu coração. É uma das vozes que, junto com a do Chico Buarque, fazem carinho em meus tímpanos. Esta canção é linda demais, alegre demais, bela demais. E tem naipe de metais. E a Amy: britânica, judia, magrela e branquela; que canta com uma americana, evangélica, de 150 quilos e negra.
http://br.youtube.com/watch?v=I6LVGcIC1Tc
Apesar de você / Chico Buarque / 1970 / Samba
Outro que faz carinho em meus tímpanos. Para um desavisado, a letra desta canção trata de um desabafo amoroso de um rapaz que, desiludido por uma moça, promete ir à forra com seus sofrimentos. E foi com esse argumento que Chico conseguiu escapar dos “carinhos” do governo Médici. A música é de 1970, mas, como se desconfiava de seu teor político, foi censurada e lançada somente no álbum Chico Buarque 1978. No interrogatório, quando perguntado quem era o VOCÊ a quem ele criticava tanto na canção, Chico respondeu: “é uma mulher muito mandona e autoritária”. Não era mentira. Afinal, não era Ditadura nada mais que um bando de mulherzinhas autoritárias?
http://br.youtube.com/watch?v=R7xRtSUunEY
Night Flight / Led Zeppelin / Physical Graffiti – Disc 2 / 1975 / Rock’n’Roll
Não há muito que dizer. Nunca procurei saber o que diz a letra. A música já é mais que o suficiente. Ouça-a e entenda.
http://br.youtube.com/watch?v=xQhfSZXrD6E
Clap / Yes / The Yes Album / 1971 / Progressivo
Instrumental inspiradíssimo do mais célebre guitarrista do Yes, Steve Howe (que estreou no Yes neste disco). Apesar de fazer parte do álbum que alavancou de vez a banda progressiva, Clap é um folk-rock deveras simpático. Clap apresenta Howe, seu violão acústico e nada mais – apesar de que, por vezes, parece que tem mais dois violões na canção.
http://br.youtube.com/watch?v=YgmYNi5Nnsk&feature=related
El mundo cabe en una canción / Fito Paez / El mundo cabe en una canción / 2006 / Rock
A faixa de abertura e que dá nome a este excelente trabalho do músico argentino é uma bela trilha sonora para um dia de sol no parque. Ademais de ter uma bela letra, autobiográfica, a música é muito bem arranjada.
http://br.youtube.com/watch?v=P4zf9DNph_U&feature=related
Por quem os sinos dobram / Raul Seixas / Por quem os sinos dobram / 1979 / Rock
“[…] coragem, coragem, se o que você quer é aquilo que pensa e faz” e outras frases como esta – que bem poderiam ter saído de um livro de Roberto Shinyashiki ou de outros charlatões da auto-ajuda – compõem a letra desta canção. Uma letra positiva, crítica e aconselhadora, com uma excelente música vibrante.
http://br.youtube.com/watch?v=27WHNX_kBXU
Bobby Brown goes down / Frank Zappa / Sheik Yerbouti / 1979 / Zappa
Citando o nome deste artista não há mais muito que dizer. Trata-se de uma belíssima música. Quem ouve a melodia alegre, que praticamente convida as pessoas a se abraçarem e cantarem juntas, e não se atenta à letra, pensa que ela fala de flores, gente feliz, momentos de júbilo. Mas não. A letra é uma crítica satírica e escrachada da pseudo-prosperidade do American Way of Life. “O God I am the american dream / But now I smell like a vaseline / And I’m a miserable “sonafabitch” / Am I a boy or a lady… I don’t know wich / I wonder… wonder… hi-ho silver!”
http://br.youtube.com/watch?v=-s-wzTRwJMg
O contrário do nada é nada / Os Mutantes / Tudo foi feito pelo sol / 1975 / Progressivo
Música e letra extraordinárias. E é Mutantes. O resto é informação. Álbum da fase progressiva d’Os Mutantes, já sem Rita Lee, com sete faixas cujos temas se interligam.
http://br.youtube.com/watch?v=X4V5rXy8E3M
San Tropez / Pink Floyd / Meddle / 1971 / Progressivo
A música mais agradável que eu conheço. Poucas merecem tanto este adjetivo quanto San Tropez. E uma música com este nome (e tema) só poderia ser linda. Faz parte da primeira fase da banda. A que segue, depois de ’72, me parece demasiado burocrática. Meddle tá no limiar.
http://br.youtube.com/watch?v=KkRcwqxLEuk
Solitary Shell / Dream Theater / Six Degrees of Inner Turbulence / 2005 / Progmetal
Outra música deveras agradável, Solitary Shell aparece no álbum que marca o início da decadência musical do Dream Theater (para muitos de seus fãs).
http://br.youtube.com/watch?v=Ia8JxG8EB50
I come tumblin / Grand Funk Railroad / E Pluribus Funk / 1971 / Rock’n’Roll
Com o vocal poderoso de Mark Farner e o vigor musical apresentado pelo power trio americano, esta música representa bem a potência do hard executado por esta banda. Na minha humilde opinião, Grand Funk é a banda mais rock’n’roll (no que se refere à musicalidade, energia, pegada) que os EUA já pariram. E com muito groove! E I come tublin sintetiza bem isso.
O vídeo que segue é de duas músicas da banda – e nenhuma delas é I come tumblin. Mas vale a pena.
http://br.youtube.com/watch?v=aLE4w43g_Ak&feature=related
Bourée / Jethro Tull / Stand Up / 1962 / Progressivo
Música de J.S. Bach e arranjos de Ian Anderson. Que parceria! Ian Anderson e o Jethro Tull aliaram a melodia erudita de Bach, na flauta de Anderson, à “cozinha” jazzística destes lunáticos das florestas bretãs.
http://br.youtube.com/watch?v=N2RNe2jwHE0
Hocus Pocus / Focus / Focus III / 1972 / Progressivo
Não falo nada. Assista ao vídeo e tire suas conclusões. Ah, são holandeses. E doidos.
http://br.youtube.com/watch?v=bpV5InLw52U&feature=related
Forrozinho / Ademir do Arari / Ainda não lançado / 2007 / Prog-Forró-Experimental
GÊNIO! Um deus das improvisações, virtuose da voz. Pioneiro na (não) utilização dos tempos e tons, no (des)respeito aos compassos e no Forró Progressivo com influências do Fusion. Descoberto pelo Cafezinho, da Pop Rock FM – 107,1.
PELAMORDEDEUS, OUÇA ISTO E DEFEQUE-SE COM ESTA INCRÍVEL ARTE!
http://br.youtube.com/watch?v=yYR0aCHQBFI
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Chegamos a mais um ano de imenso júbilo democrático. O Brasil apresenta, mais uma vez, a organização, agilidade, transparência e tranqüilidade de suas Eleições. Estes adjetivos atribuídos aos nossos pleitos, infelizmente, não podem ser usados diariamente quando falamos do que eles resultam.
Enfim, chegado o segundo semestre, adentraremos a mais um período eleitoral, que traz consigo uma rotina sodômica, torpe, e modorrenta, na qual passamos pelas provocações, brincadeiras e pegadinhas que o Tribunal Superior Eleitoral nos prega. Falo da propaganda eleitoral gratuita. Assisto a pouquíssimos programas na TV, mas alguns eu não perco: Chaves, Tom & Jerry, Pica-pau e Propaganda Eleitoral Gratuita. São todos muito divertidos e me garantem alguns momentos de entretenimento vazio e relaxante.
O processo eleitoral é algo sério, um dos poucos motivos de orgulho que Brasília nos dá. Tanto que é produto de exportação para países como a Venezuela. Mas ele acarreta em duas piadas de mau gosto. As ruas entupidas de material publicitário de candidatos (seja nos postes, nos santinhos pelo chão, ou nos agradáveis carros de som), dois horários dedicados para os candidatos exporem suas idéias e seus propósitos na TV e dois no rádio, informativos de campanha e demais artefatos comunicacionais formam uma destas piadas. A outra é formada pela a eleição de “baluartes” da democracia, como Frank Aguiar e Clodovil Hernandes, em âmbito nacional, e o “Homem do Tempo” para a nossa Assembléia Legislativa. Sem falar nos exemplos locais, com diversos folclóricos e brincalhões vereadores – como se fosse engraçado brincar com o dinheiro que o Governo movimenta com o Festival Nacional do Estupro Arrecadatório.
Este 2008, que se iniciou após o enterro dos ossos, nos promete muitos momentos fúnebres. Preparemo-nos para o solene sepultamento de nossa paciência. Ela ressuscita sazonalmente, pois temos memórias curtas e corações sem rancores. Entretanto, falece novamente com o espetáculo teatral proporcionado por grande parte dos presidenciáveis, governadoráveis, prefeituráveis e congressoráveis.
Neste ano, a brincadeira é municipal. Serão piadas localizadas, pegadinhas que só fazem sentido para as pessoas de cada cidade. Ex-vereadores outrora suspeitos e de práticas dubitáveis voltarão às Câmaras em regozijo público. O mesmo para os principais gabinetes de alguns centros-administrativos. O espetáculo proporcionado pelas publicidades eleitorais não é tão grandioso como o que ocorrerá daqui a dois anos.
Todavia, temendo já agora as brincadeiras repetitivas e sem graça às quais estaremos submetidos durante, sobretudo, as Eleições para Presidente da Nação, deixo aqui uma sugestão. Em verdade, a reproduzo apenas. Sugeriu nossa mais longeva e importante rockeira, a sexagenária Dona Rita Lee, à excelente publicação Rolling Stone (http://www.rollingstone.com.br/), que as eleições presidenciais fossem disputadas nos moldes do Big Brother Brasil. Pó, tia, GENIAL! Partindo do princípio de que não existem mais bandeiras a serem defendidas em nossa política – pois, ainda que, por exemplo, no ano de 2008, trabalhadores sejam submetidos a serviços em regime escravagista, o que importa são os índices do Risco Brasil e tudo se faz por sua estabilidade –, a idéia de Rita Lee beira a perfeição.
Imaginemos.
Passaríamos a votar de vez nas pessoas. E isto, quiçá, seria mais eficaz. Votar em plataformas, em projetos de partidos e o escambal não tem se apresentado como uma boa prática. Com o Big Brother Presidente conheceremos realmente quem é quem. Imagino que se utilizaria a mesma fórmula do BBB: os candidatos confinados em uma casa, sem acesso ao mundo externo, vigiados 24 horas por dia por várias câmeras, convivendo uns com os outros durante três meses, participando de provas, tomando banho de cueca ou calcinha, transando embaixo do edredom… Sem acesso aos seus assessores, os candidatos passariam o tempo todo a improvisar e, submetidos às provas de resistência físicas e psicológicas, acabariam por demonstrarem suas verdadeiras faces. Com o passar dos dias, os presidenciáveis acabariam em “paredões” concorridíssimos. “Disque 0800 002 13 13 se você quer eliminar o Lula ou 0800 002 45 45 se quer eliminar o Geraldo Alckmin”. À medida que os candidatos fossem sendo eliminados, cresceria a emoção. Até que, no “paredão” final, aquele que restar na casa ganharia o cargo mais importante da República.
Só vejo vantagens nesta fórmula.
1 – A campanha eleitoral deixaria de ser uma piadinha sem graça e repetitiva para ser um sucesso estrondoso de audiência, muito mais divertido que o Big Brother atual e seus projetos de celebridades.
2 – Com a concentração da campanha no programa, estaríamos livres das poluições sonoras, visuais, radio-televisivas e afins.
3 – Sairia Pedro Bial e sua pseudo-intelectualidade “global” e em seu lugar entraria o comando sério e imparcial (sic.) de William Bonner – este, por sua vez, não precisaria mais passar pelo constrangimento de ciceronear o debate dos candidatos a Presidência da República da Globo com aquela fórmula americana-requentada.
4 – O rombo orçamentário criado com o fim da CPMF seria preenchido pela arrecadação feita nas ligações que os telespectadores fariam para eliminar os candidatos nos “paredões”. Claro que, como seria um programa do Governo Federal (apesar de que, não sei por que, mas acho que a Globo transmitiria), o valor de cada ligação subiria de, sei lá, R$0,50 para R$5,00.
5 – A democracia viveria seu apogeu. Se achamos grandes coisas votarmos uma vez a cada quatro anos para elegermos nosso líder político máximo, fazer uma votação por semana, ainda que por telefone, seria o ápice da participação democrática. Logicamente, todos seriamos obrigados a votar todas as semanas no “paredão”.
6 – Tendo como parâmetro as eleições de 2006, visualizemos algumas situações: Geraldo Alckmin (PSDB) de “anjo”, conferindo imunidade ao Cristovam Buarque (PDT); o Luciano Bivar (PSL), a Heloísa Helena (PSOL) e o Rui Costa Pimenta (PCO) brigando para ver quem iria para o “paredão” com o Lula (PT)… E a Heloísa Helena de biquíni??? Imaginar isto é um exercício no mínimo engraçado.
7 – Trocar-se-ia o espetáculo de futilidades e leviandades de proto-famosos pelas futilidades e leviandades de políticos sérios e comprometidos.
Enfim, são muitas as vantagens em se trocar o atual sistema de eleição do Presidente da República pelo BIG BROTHER PRESIDENTE.
Todos teriam apelidos bacanas: Cris (Cristovam Buarque), Gegê (Geraldo Alckmin), Helô (Heloísa Helena), Lú (Lula) e por aí vai…
Ah, lembram-se do “Ey-Ey-Eymael, um democrata-cristão”? O veríamos de sunga na piscina!!! Bem melhor que bravateando no palanque… Já até imagino o pedido do candidato do PCO para não ser eliminado: “Contra o capitalismo e a exploração, não me coloquem no “paredão’”.
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Estaria Kosovo liberto?
Sem dubiedades, vejo a foto de populares de Kosovo nas ruas e me espanto.
A todo momento, em todas as partes do planeta, há algum conflito étnico/racial/social/sexual/futebolístico/filosófico/artístico. E, via-de-regra, quando vemos uma manifestação de simpatizantes destas demandas é muito comum vermos uma bandeira dos Estados Unidos sendo vilipendiada de alguma maneira. Em 99% dos casos a flâmula do Tio Sam está sendo ou queimada, ou sapateada, ou rasgada. Não se surpreenda se na final do torneio de futsal da firma você ver alguém queimando uma bandeira americana na arquibancada do ginásio poliesportivo da paróquia – é a moda.
Primeiro, o factual. Lê-se muito por aí que Kosovo fora invadida pelos Sérvios, mas não é bem isso. Kosovo é um território sérvio e, por conseguinte, caracteriza-se então o conflito em uma guerra civil. Apenas mais uma. A província em questão é considerada um local sagrado para os cristão-ortodoxos, tendo uma representação simbólica deveras importante para os religiosos iugoslavos.
É uma região que pouco sabe o que é a liberdade. Por exemplo, em 1389, o príncipe da região, Lazar, fora subjugado violentamente pelos turco-otomanos. Estes dominaram aquelas terras por cinco séculos e, não confiando nos povos dali (os slavas), passaram a povoar a região com os valsh, albaneses convertidos ao islamismo. E aí é que começa todo o imbróglio. Sérvios (cristão-ortofoxos) e albaneses (convertidos ao islamismo) dividiam as mesmas terras. Os sérvios não abriam mão da região do Kosovo por ser seu centro religioso, mesmo que para isso tivessem que dividi-la com os albaneses. Foram retomar o controle somente em 1912, nas guerras antiturcas.
Em 1918, com a criação do Reino da Iugoslávia, Kosovo passou a fazer parte de tal Reino, sendo uma província da região sérvia. Este Reino era formado por Bósnia e Herzegovina, Sérvia, Montenegro, Macedônia, Eslovênia e Croácia. Não é de hoje que a região dos Bálcãs é um caldeirão pronto a ferver a qualquer momento. Depois da Segunda Guerra, passou a ser uma república comunista, sob a égide Soviética. Em 1992, todas as nações supracitadas deixaram a federação, sobrando apenas Sérvia e Montenegro. Em 2003, a Iugoslávia deixou de existir e ficou apenas uma república tão sólida quanto geléia de banana, a Sérvia e Montenegro.
E, pronto, chegamos ao que interessa. É desta república que Kosovo faz parte. Mas, como já dito, ninguém invadiu Kosovo. Invadir Kosovo seria uma brutalidade. Está Kosovo bem ao sul do território sérvio e faz divisa com o país origem de 88% de sua população, a Albânia. Apenas 7% dos kosovares são sérvios. Os outros 5% são de outras etnias. A minoria sérvia do território de Kosovo planeja estabelecer uma espécie de autogoverno ao norte do território, para, futuramente, anexar-se à Sérvia. Seria a secessão da secessão da secessão. É intolerância étnica demais para uma região tão pequena.
Pois bem, o parlamento de Kosovo declarou a independência do território de forma unilateral na última segunda-feira – o que já fora ensaiado nos conflitos de 1999. E já há a movimentação de 16 mil homens da Otan no novo país. França, Suécia, EUA, Itália e Turquia dividem-se na ocupação do país. Os kosovares entendem tal ocupação como uma ajuda da Otan que, liderada pelos EUA, estaria garantindo a autonomia do território. Mas a Sérvia não concorda e já anunciou represálias diplomáticas aos países que reconhecerem a independência e apoiar Kosovo.
O interessante é que milhares de populares foram às ruas comemorar tal fato histórico e adivinha quem estava lá? Sim, ela, a pimpona bandeira americana. Mas ela não estava sendo queimada, nem rasgada, nem pisoteada. Os kosovares brandiam bandeiras do país de Bush junto com bandeiras da Albânia. Fato raro, certo? Nem tanto…
A priori, os EUA estão apoiando Kosovo nos Bálcãs. Mas, até quando? Por quanto tempo será interessante para os Estados Unidos apoiarem a nação que se ergue de mais um conflito? Kosovo é habitado quase que em sua totalidade por albaneses, mas é considerada o berço religioso da Sérvia. Quem fica com o território? Depende, muito provavelmente, de quem os EUA acham que “merece” mais. E isto definirá quem estará agitando alegremente a bandeira americana e quem a estará queimando.
Este filme foi visto muito recentemente. Numa região mais ao oriente, homens barbudos e vestidos com espécies de saias receberam armas e apoio dos amigos americanos para interromper a invasão dos malvados soviéticos. Mas estes parceiros, os barbudos e os americanos, tiveram um desentendimentosinho. Então, os barbudos mostraram que eram muito malvados e largaram no chão as bandeiras americanas que, até então, empunhavam alegremente e passaram a queimá-las. E fizeram mais: derrubaram uns prédios por aí também.
Estaria nos Bálcãs iniciando mais um filme com este tema?
A propósito: já que é para pararem de INVADIR KOSOVO, poderiam TIRAR AS MÃOS DA CHECHÊNIA também?
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O Taberneiro está de volta, como percebemos.
E ele volta “ligado nos baguiu”, como falam os piá.
E, como diria o poeta, “BOMBA, BOMBA, BOMBA!!!”
Vágner Mancini não é mais o técnico do Grêmio!
O novo técnico do Tricolor é Celso “Amo Volantes” Roth. Em conversa informal com amigos no balcão da Taberna, pude ouvir a provável escalação que Roth levará a campo. Eis:
Vitor (gol);
Thiego (zag), Léo(zag) e Jean(zag);
Eduardo Costa (vol), Nunes(vol), Maílson(vol), William Magrão(vol) e Júnior(vol);
Adílson(vol) e Itaqui(vol)
gol = goleiro
zag = zagueiro
vol = volante
OREMOS.
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“Se vale a pena fazer algo, vale a pena fazê-lo bem.” – alguém disse isso (Voltaire, Einsten, Pedro de Lara, ou algum outro gênio). E disse bem.
Se é para se fazer música, por exemplo, façamo-la bem feitinha, pois. Ligar, equalizar e afinar instrumentos dá trabalho – música tem instrumentos, o que se faz apenas com um computador ou com uma picape (até pouco tempo isso era carro pra mim) é no máximo “classificável” como som. Trabalhoso é também compor, arranjar, ensaiar, gravar, mixar e o escambal. E, ainda assim, tem muita gente que faz isso sem que o faça valer a pena ser feito.
A música quando bem feita, assim como tudo, vale a pena porque leva a algo. A música “bem feita” não é necessariamente aquela tecnicamente perfeita ou coisa que o valha. Pode ser também, mas é, sobretudo, a que faz algum sentido verdadeiro a alguém, que desperta alguma sensação verdadeira em alguém, e que faz com que mexamos alguma parte do corpo que não seja o poposão – como o cérebro, pra variar.
A música que vale a pena nos faz ter vontade de chorar sem saber por quê. Ou nos leva a um estranho e repentino sentimento de bem-estar e/ou euforia. Agradam-me os extremos.
Se me perguntam de que tipo de música gosto, a minha resposta é “da boa”. Estranho quando alguém diz algo como “só gosto de música calma”, ou “meu lance é música pesada, pauleira!”, ou ainda “eu gosto de música alegre, agitada, pra balançar”. Eu gosto da música “boa”. E que seja boa para mim. Isto que importa. Passarim, do Tom Jobim, causa em mim a mesma sensação confortável que é causada por Bounce, do System of a Down (http://br.youtube.com/watch?v=bf6r65_iHL4). Esta, um chute nos tímpanos; aquela um carinho nos ouvidos.
Voltando aos extremos, mas seguindo na linha de não se limitar o gosto e deixar-se levar pelas sensações que as músicas nos trazem… O apuro vocal levado a seu limiar com Jon Anderson e seus amigos do Yes é maravilhoso, sim; mas, o desleixo completo apresentado pelo vocalista do Clap Your Hands Say Yeah também tem seu valor (http://br.youtube.com/watch?v=Gtv3fSbuKvc&feature=related).
O importante é libertar-se. Mas cuidado com esta libertação.
Sabe aquela sentença do Zappa “A maioria das pessoas não reconheceria boa música nem que ela viesse mordê-las na bunda”? Pois é. As pessoas das quais Frank Zappa (http://br.youtube.com/watch?v=-s-wzTRwJMg) fala são aquelas mesmas que ouvimos por aí dizendo o seguinte: “eu sou muito eclético, curto de tudo”. Ora essa, o vinagre curte. Música é a alma ao alcance dos ouvidos, é apreciada, amada e odiada. Quem diz gostar de tudo invariavelmente gosta de qualquer porcaria que se lhes empurram orelhas a baixo nas rádios. E aqui chegamos a outra questão.
Nas estações de rádio movidas a muito jabá toca muita, mas muita imundície. Mas, paradoxalmente, nas poucas vezes em que tive a oportunidade de ouvir uma destas rádios de massa nos últimos tempos cheguei a identificar uma ou outra música de qualidade. Nestas crias do jabá sabemos que o repertório é aquele da moda e que as músicas que ouvimos hoje das 14hs às 14h30min serão as mesmas que tocarão amanhã e depois e por mais um mês, no mesmo horário e, se bobear, na mesma ordem. Mas já ouvi a supracitada System of a Down tocando numa dessas radiozinhas de Porto Alegre, por exemplo. Esta banda não tem nada a ver com o suingue do Ivetão ou com o pop do Jota Quest. Mas a gurizada ouvia a rádio igual. Como? Simples, a gurizada ouve o que roda na rádio. Em linhas gerais, não é o grande público que determina a programação das grandes rádios. São estas (as grandes rádios) que determinam (e deterioram e limitam) os ouvidos daquele (o grande público). Se as filhas do jabá resolvessem rodar o barulho produzido por um ventilador de teto logo este seria o hit mais pedido da programação. E ganharia uma versão funk.
Ouve-se por ouvir. Ouve-se porque todos ouvem. Todos ouvem porque é o que tem à mão, o que é apresentado aos ouvidos e grudado aos lóbulos das orelhas.
Libertemo-nos, mas sem deixar que saibam para que não sejamos invadidos e continuarmos tendo o controle do que entra em nossos cérebros. Rendamo-nos ao que é belo e ao que é feio, ao que nos faz bem e ao que nos corrói a alma. Deixemos a música estuprar os tímpanos ou, a eles, fazer um carinho tão íntimo e deleitoso como os cuidados da mulher amada.
Enfim, ouça a música que vale a pena, aquela que merece a atenção de seus ouvidos.
A “boa”.
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E eu aqui preocupado com o estoque de Jack Daniels.
Tuvalu, bom que fique claro, é um arquipélago. Possui apenas um aeroporto (herança norte-americana dos tempos da segunda guerra), de onde parte uma decolagem a cada três dias. Na ilha sede a frota de táxis é de incríveis quatro unidades!
A economia é sustentada em três pilares. Dois deles “normais” para uma ilha tropical, de clima equatorial, localizada a nordeste da Austrália: pesca, de subsistência, e “exploração” ostensiva dos coqueiros.
Entretanto, o maior gerador de divisas para a ilha é um ilustre desconhecido dos tuvaluanos: o domínio “.tv” na internet. Um milhão e meio de dólares circulam na economia tuvaluana anualmente graças aos pagamentos de empresas como a CNN para a utilização do “.tv” em seus saites ( www.cnn.tv, por exemplo).
Esta potência cibernética possui um território de Ínfimos vinte e seis quilômetros quadrados – distribuídos por 9 atóis, sendo Funafuti a principal ilha. Bá, Funafuti!
Estas são as principais características do quarto menor país do mundo - sim, é possível ser menor que 26km².
E isso “tudo” vai desaparecer. Este “tudo” vem com aspas jocosas porque quem escreve aqui é um nativo de um país continental, cujo território comportaria tranqüilamente um porrilhão de Tuvalus.
Todavia, para os tuvaluanos, a pequena e aprazível Tuvalu é, tão-somente, tudo o que eles têm. Por enquanto.
Ocorre que, com o passar do tempo, a ilha vem afundando alguns centímetros. Na realidade é a água que sobe e vai encolhendo o território tuvaluano. Por mil garrafas de graspa véia e fedida, pra onde vai esse povo? Não só o povo, mas a identidade do mesmo, sua cultura, seus costumes, sua história e seu futuro.
A situação é tão crítica que países da região já estudam, a alguns anos, possibilidades para a população da mal fadada ilha. O mais provável é que grande parte dos 11 mil tuvaluanos migre forçadamente para a Indonésia. Triste isso.
Triste, pois, apesar de estarmos falando de um pequeno arquipélago, com uma população menor que o contingente de parentes de políticos “trabalhando” em repartições públicas brasileiras e uma economia tão rentável quanto a venda de vales-transporte no Paradão, trata-se de um povo! E, por menor que seja geográfica e economicamente, todo povo tem sua cultura, suas bases históricas e suas características forjadas e intimamente ligadas ao solo onde surgiu e evolui. E o solo do povo tuvaluano está simplesmente submergindo.
É evidente que todos nós sabemos o porquê do desaparecimento de Tuvalu. O aquecimento global, a má utilização dos recursos naturais, o cocô que meu cachorro larga na calçada, o efeito estufa, a minha geladeira que libera CFC na atmosfera, o lixo que eu, graciosamente cagando e andando, atiro no chão, bem do ladinho do cesto, o Bush, blá, blá, blá.
Grandes coisas. Nada disso importa. O mundo continua a girar, a novela continua indo ao ar, a cerveja continua gelada no boteco, dia 5 os borracho vêm me pagar os fiado, minha mulher continua implicando com a mancha de molho na minha camisa. E Tuvalu continua afundando.
Mas talvez seja melhor naufragar literalmente, como Tuvalu, do que simbolicamente, como nós. O fim é mais heróico.
Enfim. Muito não pode se esperar do único ser na face da Terra que faz xixi na água que bebe.
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