Hugh Grant?
Sim. Depois da garrafada, meu assistente decidiu chamar-se Hugh Grant. Na verdade, eu ainda o chamo de Hans, mas ele fica brabo. Maldita hora em que ele começou a dançar de forma assustadora. Se não fosse isso, eu ainda teria um assistente chinês com nome apropriado. Agora: chinês chamado Hugh Grant não dá.
Ele diz que fala inglês. Como eu não falo, não sei se é verdade. Hans afirma que até já gravou um clipe com novo visual. Faz algum tempo que aprendi a não duvidar dele.
Era frio, estávamos presos na estação Künnenberg Strasse, em Frankfurt. Já passava das 23h, e ninguém aparecia. Em realidade, afirmo serenamente: não lembro como paramos ali. O fato é que estávamos na estação e não conseguíamos sair de lá. Tudo escuro, e o Hans com uma garrafa de vódca. Eu disse: Dê um jeito nisso. Ele riu, riu muito, fechou os olhos e respirou fundo. Não aconteceu nada. Ele permaneceu risonho, com olhos semi-abertos. Fui me sentar num banco ali perto, tateando para não cair nos trilhos. Então Hans me perguntou se eu tinha um alicate. É claro que eu não tinha um alicate. Na Rússia, teria, afinal todos andam com seu alicate na Rússia. Mas eu não estava preparado na Alemanha. Aliás, não tenho a mínima idéia do que eu fazia na Alemanha naquela época. Por sinal, não tenho recordações claras de qual era a época à qual me refiro. O importante é que, duas horas depois, Hans conseguiu, em posição de Lótus, evocar a manifestação de um funcionário da estação, que nos tirou dali assustado. Hans e eu estávamos bêbados, animados e prontos pra outra.
Saudades do Hans…